quarta-feira, 18 de março de 2009

Missão, o objetivo de qualquer organização

17/03/2009 - 11h03
Missão, o objetivo de qualquer organização

Por Dal Marcondes

"O lucro não pode ser o objetivo de uma empresa, é apenas um dos componentes para que a ela atinja sua missão".

À primeira vista esta frase pode parecer um tanto despropositada em um mundo onde o lucro, o ganho de capital e a remuneração dos acionistas são vistos como valores absolutos em algumas empresas e por muitas pessoas. Mas vamos pensar um pouco em termos de processo histórico. As empresas estão assumindo um papel absolutamente protagônico no processo civilizatório do século XXI. São muitas vezes maiores do que Estados independentes e, algumas, têm mais poder e dinheiro que a maior parte dos países.

O processo civilizatório global tem algumas etapas. Na primeira, o início da organização dos homens em sociedade, as religiões reuniram os povos em torno de valores éticos e religiosos. Esta forma de organizar ofereceu à humanidade um senso de justiça. Depois, a necessidade de uma união mais complexa, que permitisse a defesa de grupos humanos contra outros, isto levou à formação de governos. Daí à construção de nações e impérios foi um passo.

No entanto, nos dias de hoje, nesta etapa do processo civilizatório, onde o capital assume um papel decisivo e as empresas impactam a sociedade de forma quase absoluta, é o momento de se pensar qual é o papel das empresas na construção da sociedade dos próximos séculos. Aos poucos, mesmo ainda sem perceber a profundidade desta mudança, muitas empresas estão definindo suas missões. Pode-se ler em relatórios financeiros e socioambientais a missão de muitas empresas. Ora, nenhuma empresa que se preze pode ter como missão apenas dar lucro aos acionistas. Isto é postura de traficante de drogas.

As igrejas sempre arrecadaram o dízimo, uma décima parte dos rendimentos de seus fieis, para manter suas atividades. Apesar de o dízimo ser importante para que fossem construídas catedrais e monumentos, realizadas obras por parte dos sacerdotes, recolher o dízimo não é a missão de nenhuma igreja, é apenas parte do processo para que a organização cumpra sua missão de levar conforto espiritual a seus seguidores, ou coisa semelhante.

Os governos arrecadam impostos. No entanto, não é a missão de nenhum governo arrecadar imposto. O dinheiro dos impostos deve servir para o que sejam cumpridos diversos compromissos que a sociedade delega aos governos, como prover os cidadãos de infra-estrutura, educação, saúde, segurança e Justiça, entre outras coisas. Nem todos os governos fazem isso com qualidade, mas a questão fundamental é que nenhum governo existe apenas para cobrar impostos de seus cidadãos.

E as empresas? Elas existem para dar lucro? Apenas isso? No início as religiões e os Estados também não tinham claro suas missões. Havia abusos nas relações com fieis e cidadãos. Os exemplos mais gritantes foram a Inquisição da Igreja Católica e as ditaduras sangrentas que chegaram ao poder em quase todo o mundo. Mas, aos poucos, estas instituições foram evoluindo. Hoje certamente não há mais espaço para “caças às bruxas” no Ocidente, assim como ditaduras não são aceitas com tanta complacência. Exceto, talvez, pela maneira insensata com que algumas empresas e governos flertam com a China, um regime autoritário e sem um sistema jurídico equilibrado.

Bom, fora a China, como as empresas estão evoluindo em direção ao capitalismo sustentável? Em princípio respeitando legislações cada vez mais rigorosas sob o ponto de vista ambiental e social. Também através de controles estabelecidos por normas de governança corporativa exigidas pelas bolsas de valores de todo o mundo.

As grandes empresas globais e as maiores empresas de atuação nacional no Brasil já não podem mais trabalhar sem uma missão, e esta missão está quase sempre ligada à satisfação de seus clientes e à perenidade de seu negócio. Umas poucas ainda inscrevem a remuneração de seus acionistas entre os itens da missão. A evolução das empresas deverá levar o elemento cidadania à relação com os consumidores.

Nas escolas de negócios há uma máxima que diz: “É sempre melhor e mais fácil vender mais para os mesmos”. Foi em cima desta Máxima que o mundo acelerou os processos de desigualdade. Mais para os mesmos é quase o mesmo que nada para os muitos que nada compram. Hoje muitas empresas estão descobrindo que vender pouco para muitos é mais democrático e sustentável. Desta forma se consegue espalhar os benefícios da ciência, da tecnologia e da produção em massa para uma parte maior da humanidade.

Novos problemas surgem desta mudança de paradigmas. Maior consumo também representa mais impacto ambiental e, pela lógica de demanda, maior preço. Mesmo que se saiba que o aumento de produção reduz preços. No entanto, se a ótica for cumprir uma Missão e não apenas ter lucro a qualquer preço, as empresas e governos podem se ajudar a construir modelos de negócios dentro destes novos paradigmas.

Muitos economistas e executivos que atualmente atuam em empresas e governos não acreditam que seja possível mudar os paradigmas enraizados do mercado. No entanto, sob uma perspectiva histórica, o mercado não é tão antigo ou poderoso assim. E a revolução industrial ainda não tem três séculos. A energia elétrica para todos tem menos de 50 anos e o carro da família só chegou à classe média nos anos 60 do século passado. Antes disso era coisa para as elites, principalmente no Brasil e na América Latina.

É verdade que consumidores precisarão mudar suas expectativas para que se consiga mudar a forma de usar o mundo. Os limites de uso da Terra estão estabelecidos e qualquer aventura pelo espaço em busca de novos mundos para a humanidade ainda será ficção científica por alguns séculos mais.

A compreensão de que não é preciso parar de consumir bens essenciais, mas que é uma bobagem continuar a produzir e consumir lixo, tanto para as empresas, como para consumidores é fundamental. E as empresas são estruturantes neste passo do processo civilizatório.

A Missão não pode ser produzir cada vez mais lucro. A Missão deve ser produzir cada vez mais riqueza e bem estar para a sociedade, garantindo as condições de perenidade do negócio e da vida. (Envolverde)

* Dal Marcondes é diretor de redação da Envolverde.


(Agência Envolverde)

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