quarta-feira, 1 de abril de 2009

Cidade Biz -: "Antonio Machado
Uau! BC registra resultados anticíclicos do gasto fiscal como um dos fatores a mitigar a crise

A síntese é que, salvo agravamento da crise externa, a situação interna deve parar de se deteriorar

O Relatório de Inflação, nome singelo da publicação trimestral do Banco Central que avalia o desempenho da política monetária e dá o sentido de sua direção provável à luz do comportamento de preços, sugere quatro conclusões básicas e uma síntese: salvo agravamento da crise externa, a situação interna deve parar de se deteriorar.

O destaque fica para o viés keynesiano do BC no capítulo sobre o nível de atividade, uma novidade para um órgão apegado à ortodoxia e, como os bancos centrais em geral, embora não na crise em curso, não se avexa em chegar atrasado à conjuntura.

“Além do processo de redução da taxa básica de juros”, diz o BC, registrem-se as ações “para garantir tanto o dinamismo das exportações e a normalização da liquidez em moeda estrangeira quanto o aumento dos gastos, em especial os relacionados a investimentos em infraestrutura”.

Em linhas gerais, depreende-se do relatório o seguinte:

1º, a desaceleração da economia é toda creditada à crise externa pelo BC, não à manutenção por um período maior que o necessário da taxa Selic no nível de 13,75% ao ano. A inflexão começa em janeiro quando o ambiente recessivo já estava instalado e não havia nenhum sinal de pressão inflacionária, nem sequer da elevada depreciação do real. Não custava um exercício de sinceridade, tanto quanto se reconhece a presteza do BC em acudir os bancos de menor porte.

2º, como se podia especular a partir da parada do crédito em todo o mundo em seguida à quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro, a inflação perdeu impulso, mas isso só agora se reflete no modelo do BC. No cenário básico, a variação projetada para 2009 recuou de 4,7%, no relatório trimestral divulgado em dezembro, para 4%.

É menos que a meta central da variação anual, 4,5%. No acumulado em doze meses, a inflação medida pelo IPCA virá de 5,7% em base corrente para 4,7% no segundo trimestre, 4,1% no terceiro e 4% ao final do ano, segundo tal cenário. O BC está mais otimista que as projeções de mercado, conforme a média das expectativas que coleta a cada semana junto a bancos e consultorias e divulgadas no Focus.

O Focus desta semana estima a variação anual do IPCA em 4,32%, e 4,5% em 2010, com a taxa Selic (hoje a 11,25%) projetada no final do ano em 9,25%, e 9,5% ao fim de 2010. É curiosa tal divergência, já que no mercado de juros privados a taxa para doze meses anda ao redor de 10%, o que equivale a um retorno real de 5,5%, abatida a inflação dos próximos doze meses prevista no Focus semanal, 4,26%.

Incerteza sobre 2010

3º, o disparate entre as visões prospectivas da inflação no mapa do BC e no de mercado se acentua na virada do ano. No cenário de mercado, a inflação em doze meses se desloca para 4,4% no primeiro trimestre de 2010, fato atribuído pelo BC “em parte” à expectativa dos analistas quanto à continuidade da redução da Selic.

Esperam o quê? Que o laxismo monetário reintroduzirá pressões de demanda a médio prazo? Mais provável é que tais projeções se devam às incertezas quanto ao comportamento futuro da economia - o que é função da trajetória do Produto Interno Bruto (PIB) este ano e no próximo, vindo a influenciar a retomada de preços das commodities.

Indústria é o enigma

4ª conclusão: segundo o BC, a parada abrupta da economia global e a deterioração das expectativas quebraram o ritmo de crescimento a partir do último trimestre de 2008. A expansão do PIB em 2009, que fora prevista em 3,2% em dezembro, está reduzida a 1,2%, uma taxa sujeita a muitas condicionalidades.

Na avaliação do mercado vista pelo Focus, o PIB fica estagnado, e a produção industrial cai 2,7% - enquanto o BC projeta aumento de 0,1% no relatório de inflação.

Para se confirmar o cenário do BC, a indústria, que deve acumular neste primeiro trimestre uma queda da ordem de 15% sobre seu nível entre julho e setembro de 2008, precisa crescer 4% até dezembro. É um esforço e tanto, mais que a estimativa anterior do BC, de 3,6%.

PIB global cai 1,7%

Confrontado ao que se espera da economia mundial, a previsão do BC para o PIB este ano, embora menor que os 2% dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento na reprogramação do orçamento fiscal, é até otimista.

Nas novas projeções do Banco Mundial, o PIB global virá de crescimento de 1,9% em 2008 para queda de 1,7% este ano, a primeira retração desde a 2ª Guerra, recuperando 2,3% em 2010. No Brasil, o PIB cresce 0,5% este ano, e 3,2% em 2010, ambas acima da média global. Em suma: o país recua, mas menos que o mundo.

Opções se estreitam

A profusão de números do BC e do Banco Mundial deve ser vista com cautela. A conjuntura continua apoiada em bases muito frágeis, com a banca das grandes economias ainda pendurada na brocha dos bancos centrais e Tesouros nacionais, sem indicar a retomada do crédito.

Da reunião das vinte maiores economias do mundo, o G-20, quinta-feira, em Londres, também não se espera mais que generalidades. É o que revela rascunho da nota oficial a que o Financial Times teve acesso. O esforço fiscal conjunto de todos os países do G-20 teria fracassado, até porque parte deles começa a encontrar dificuldade para rolar suas dívidas. As opções estão cada vez mais estreitas."

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