terça-feira, 14 de abril de 2009

Déficit comercial menor e poupança maior em fevereiro sugerem que a crise amaina nos EUA

Fator decisivo para a saúde americana não é a volta do consumo, e sim superar o excesso de dívidas
Antonio Machado

Não há uma só maneira de se olhar uma crise. Uma visão não tanto severa sobre a conjuntura dos EUA, ainda terrível mas com sinais de distensão, já permite achar resultados menos sombrios. Difícil é encontrar quem corrobore tais indícios num país que desaprendeu desde a depressão dos anos 30 a lidar com crise brava.

O fator decisivo para a saúde dos EUA não é a volta ao consumo. O seu excesso endividou os americanos, arrasou a economia e colapsou o sistema financeiro. A normalidade do consumo, meta dos planos de resgate da banca para reabertura do crédito, é um elo do processo, mas não visa restaurá-lo. O dólar ruiria. Os EUA não digerem outro ciclo consumista, nem haveria quem o financiasse.

As grandes injeções de liquidez são para desobstruir os circuitos financeiros e do crédito sem os quais a economia não sai do lugar. “Para que o crescimento seja sustentável, não pode ser baseado em especulação, em mercados superaquecidos, nos consumidores tirando o máximo de seus cartões de crédito ou em déficits ininterruptos”, definiu o presidente Barack Obama em seu giro europeu. “A questão toda é sair de uma economia de emprestar-e-gastar para a economia de poupar-e-investir.” Não poderia ter sido mais claro.

A poupança já está se recompondo. De 0,6% da renda disponível em agosto do ano passado, saltou para 5% em fevereiro. E o déficit em conta corrente, outro dado crítico de solvência nacional, caminha para 3% do PIB ou até menos, como prevê o economista Jim O’Neill, do Goldman Sachs. É menos da metade do rombo alcançado em 2007.

A velocidade do ajuste externo da economia americana impressiona. O déficit comercial em fevereiro recuou 29%, reduzindo-se de US$ 36,2 bilhões em janeiro para US$ 26 bilhões - o menor nível desde novembro de 1999. A surpresa veio do aumento não previsto de 1,6% das exportações sobre janeiro, já que as importações mantiveram o esperado: voltaram a encolher, caindo mais 5,1% em fevereiro.

O ímpeto exportador foi disseminado. Bens de consumo exportaram mais 11,6% sobre janeiro. Semicondutores, 11%. Equipamentos de telecomunicações, 9,8%. Carros, 8,5%. O déficit com a China veio para US$ 6,4 bilhões, o menor desde 2006. Falta muito a recuperar, mas, mantida tal trajetória, os EUA estarão fora da recessão antes do que a maioria imagina. E isso faz diferença, até para o Brasil.

Mudança de cenário

Desde os anos 80 os resultados deficitários da balança comercial subtraem crescimento nos EUA. Se a redução de fevereiro configurar uma tendência, e há indício de que seja - contra a China o déficit foi o menor desde 2006 -, as estimativas sobre a profundidade da recessão nos EUA começarão a ser revistas.

No último trimestre de 2008, o saldo negativo tirou 0,4% do crescimento e se previa outro tanto neste início de ano. “Este dado muda significantemente o cenário”, diz a economista Anete Markowska, da Société Générale.

Paralelo com Brasil

A recuperação nos EUA pode estar à vista, embora tênue. Mas não significa retorno ao equilíbrio anterior, que talvez jamais volte como antes no mundo, nem o fim do desemprego e da insolvência em massa. Até que a sangria seja estancada levará anos.

A análise comparativa do momento dos EUA com a situação do Brasil durante última grande crise econômica ajuda a entender o que pode vir à frente. Pela ótica da perda de uma situação de fartura, como fora o período entre julho de 1994 e fim de 1998 - o auge do Plano Real -, o que veio depois da maxidesvalorização cambial no inicio de 1999, acompanhada de juros de 50% ao ano, foi uma catástrofe.

Tragédia redentora

A tragédia do Brasil nos anos 90, para muitos uma década perdida, no entanto, foi também a de superação de desvios da macroeconomia. Como o real “forte”, que triturou os superávits comerciais e levou o país à insolvência. E o descontrole das contas fiscais, saneadas com brutal escalada da carga tributária e dívida pública.

Afora a pancada tributária, o resto tem semelhança com a situação dos EUA.

Vista pelo retrovisor, a catástrofe remiu o Brasil das crônicas crises cambiais, origem de todas as grandes recessões desde o Pós-Guerra. Os EUA afundaram também por erros cambiais, e a propensão doentia a gastar mais do que poupa e produz.

A desindustrialização oportunista das multinacionais, substrato do modelo econômico sem pé nem cabeça possível apenas pela emissão imperial do dólar, fez o resto. A correção desses desvios está em curso, mas leva tempo.

Confundindo a causa

Não podia dar certo, não deu e a crise financeira terminal em que os EUA se envolveram foi a parte mais esfuziante, mais terrível da tragédia americana, mas não a sua determinante.

Ela não é fruto da “combinação de ganância dos agentes do mercado financeiro com medo gerado nas pessoas e nos governos, que não sabem como enfrentá-la”, como falou a ministra Dilma Rousseff num evento na Assembléia Legislativa gaúcha no fim de março. A ministra tomou efeito como a causa.

A causa está no duplo déficit dos EUA, fiscal e externo, bancado com papéis do Tesouro vendidos a países superavitários. O retorno dos dólares em ondas liquidou as exportações e criou as bolhas. O mal foi esse. O resto é febre.

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