Serra fuzila o BC e Aécio reclama ao PSDB autoria de programas sociais de Lula. 2010 começou
Se retórica dos presidenciáveis tucanos mantiver essa toada, Lula terá de se desdobrar ou subir o tom
Antonio Machado
O governador José Serra sempre poderá alegar ao criticar o Banco Central e a priorização do gasto corrente pelo governo Lula em vez de investimentos em obras que nunca mudou de lado. Juros elevados, canalização do grosso das receitas fiscais para gastos correntes e valorização cambial já o faziam dissentir da política econômica do primeiro governo FH quando, intramuros, se chocou com Pedro Malan, ministro da Fazenda, e perdeu. Sua crítica continua atual.
A diferença é que, antes, ele se demitiu da pasta do Planejamento para reassumir a cadeira de senador e, hoje, como pré-candidato do PSDB à sucessão de Lula em 2010, o que fala pode ter conseqüências maiores que à época em que não passava de um dissidente tucano.
Ele lidera por ora as sondagens de opinião. Num seminário em São Paulo, no início da semana, deve ter provocado inveja em petistas ao censurar o BC por não ter se aproveitado ainda em setembro do agravamento da crise para decepar a Selic de uma só vez em até 4 pontos percentuais, desinflando-a para 8,75% - movimento iniciado apenas em janeiro e em doses menores. Hoje, está em 10,25%.
Águas passadas não voltam. Mas a sequência da crítica de Serra é reveladora de sua visão sobre a gestão da política monetária, toda ela, desde os tempos de Armínio Fraga na direção do BC, no segundo mandato de FHC, e mantida por Henrique Meirelles no governo Lula, sustentada em transparência das decisões e interação completa com o mercado financeiro. Serra pensa diferente. A pancada nos juros que teria feito se pudesse não seria precedida de aviso nenhum.
A política monetária guardada a sete chaves funcionava assim até a introdução do regime de metas de inflação por Armínio em 1999, cujo pressuposto é o de influenciar as expectativas dos mercados, não surpreendê-lo. A meta da variação anual da inflação (4,5% este ano, como no seguinte) antecipa a potência que a Selic deve tomar para convergir as expectativas, monitoradas pela pesquisa semanal, conhecida por Focus, junto a bancos e consultorias.
O BC divulga tal boletim para harmonizar o sentimento sobre o que vai à economia, complementado em profundidade com a publicação das atas do Copom, que determina a intensidade da taxa interbancária. Pelo que Serra disse, o BC deveria ser mais como o Federal Reserve e o Banco Central Europeu, que também “falam” pouco com o mercado.
Isso não é de somenos. É o fulcro da política econômica, e também determinante da coalizão do capital em torno de um governo.
Autonomia no cangote
Com Lula os usos e costumes do BC de Armínio e Malan não mudaram, apesar da enorme bronca de petistas e dos industriais. Com Serra, o provável é que a autonomia informal de que desfruta o BC fosse muito menor, se é que existiria.
Este contraponto poderá ter apelo eleitoral, no entanto, só se o BC interromper o ciclo de cortes da Selic, que já é a menor em base histórica, embora não pelo padrão internacional. É ai que se forma outra diferença entre eles.
E câmbio com coleira
A Selic relevante é a real, que desconta a inflação. Nesse metro, a taxa é da ordem de 6%, com inflação de 4% à frente, contra juros de quase zero mundo afora. E isso, junto com a melhora das contas externas do país, volta a ser um convite aos capitais ociosos que vagam pelo mundo.
O dólar despenca, além de estar em queda livre frente ao euro e outras moedas pelas dificuldades dos EUA, o que, na mão inversa, valoriza o real, hoje já perto de R$ 2,00, depois de ter chegado a R$ 2,30 dois meses atrás pela crise externa.
Fala-se que chegará a R$ 1,80 em poucas semanas, um desastre para as exportações. Serra discorda de tudo isso. No mesmo seminário em que desancou a Selic alta, disse que sua preocupação é com a volta da “ciranda” dos tempos pré-crise, quando o real bateu em R$ 1,50, com a agravante, emendou, de que hoje “não há ameaça” de inflação.
Morde-assopra tucano
Para Serra, a política monetária e a cambial formam um conjunto, o que a direção atual do BC só aceita como segunda derivada de sua atuação. Ela também interage com a política fiscal, que para ele deveria concentrar-se em investimentos, conforme o modelo asiático de desenvolvimento, não em gastos com funcionalismo, por exemplo.
O divórcio com “tudo isso que está ai” só não foi maior porque o governador Aécio Neves, também presidenciável, elogiou num outro evento, em João Pessoa, os programas sociais de Lula. O fez para resgatar ao PSDB a autoria do que Lula lapidou. Vai pegar fogo.
Diversidade eleitoral
Se a retórica dos presidenciáveis tucanos mantiver a toada desta semana, Lula terá de se desdobrar ou subir o tom. Serra e Aécio, mesmo que não combinados, se complementaram nos discursos.
Serra-anti-BC lembra o PT de 2002. Aécio-Bolsa-Família divide com Lula o controle hoje absoluto de seu grande trunfo eleitoral. Não é clara ainda a posição dos empresários. Estão satisfeitos com Lula, mas a desconfiança com o PT e os movimentos sociais não diminuiu, assim como a doença de Dilma Rousseff agravou as incertezas.
Serra, no entanto, também traz apreensão, pois temem sua autossuficiência e o dirigismo fiscalista, considerado excessivo. Não faltam emoções."
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