| 26/06/2009 - 01h06 Brasil: Potência e realismo Por Joaquín Roy* | Brasília, julho/2009 – Dizem que um político francês, ao ser perguntado se o Brasil tinha um bom futuro, respondeu com desdém e sábia ironia que “o Brasil sempre teve um grande futuro, tinha um bom futuro e sempre teria um magnífico futuro”. Parece que o Brasil viveu durante décadas sob essa espécie de estigma. Durante a segunda metade do século passado, os Estados Unidos descobriram sistemática e periodicamente o potencial desse país, como sócio ou aliado idôneo para sua estratégia mundial. No resto do continente se dizia, em contraste com a ambivalência e as freqüentes mudanças nas estratégias de política externa, que na América Latina havia somente dois Estados “sérios” em seus movimentos diplomáticos: Brasil e Cuba. Os demais apresentavam agendas erráticas, pouco confiáveis e, geralmente, ineficazes para seus respectivos interesses.
O certo era que o Brasil não conseguia sublimar uma teórica inserção mundial de acordo com a percepção que desfrutava em quase todo o planeta. A nova desordem mundial, após o fim da Guerra Fria, permitiu a ascensão de alguns atores secundários que haviam se colocado no centro da atenção, não apenas dos Estados Unidos, único sobrevivente do confronto ideológico anterior. Porém, se é verdade que os Estados Unidos podem intervir, com maior ou menor sorte, em qualquer cenário e sobre todo tipo de agenda de urgência, não está garantido que possam ter êxito sem a colaboração de sócios com potencial de eficácia e merecedores da confiança. O Brasil, finalmente, ocupou esse posto privilegiado.
O problema é que outros atores, que querem contar no novo e incerto mundo, também pensam o mesmo do Brasil e lutam para tê-lo ao seu lado. Além disso, alguns desses novos protagonistas têm as mastodônticas dimensões do Brasil e também competem com seu potencial protagonismo. O primeiro déficit do Brasil é que tem um excesso de atrativo. E o que não está tão claro é se o Brasil está em condições de responder às expectativas e se seus dirigentes estão dispostos a exercer esse papel de responsabilidade. Entre a ambição e a cautela, agora se move a máquina governamental em Brasília, onde o poder é a indústria local.
A vontade existe para encarar esses desafios globais e regionais, mas, por outro lado, seus dirigentes e estrategistas econômicos, para não falar dos especialistas sociais, estão conscientes da notável dose de déficit em sua problemática nacional interna. Em primeiro lugar, o Brasil já está em recessão, com queda de 0,8%. Tem uma moeda supervalorizada, que produz carestia. Com outros países latino-americanos, sofre de um elevado nível de desigualdade, inaceitável moralmente e insustentável para a estabilidade político-econômica.
Como resultado, a percepção da ameaça à segurança pessoal já não é uma advertência para turistas, mas uma evidência cotidiana dos cidadãos do Rio de Janeiro e de outras cidades. Impressionantes espaços do território estão fora do alcance do Estado. Há favelas urbanas onde a polícia simplesmente não entra; a “ordem”, simplesmente, é “garantida” pelas milícias, grupos de narcotraficantes e assassinos. O necessário escudo social para enfrentar este desafio ainda é deficitário.
O estado da educação causa alarme, não apenas aos cidadãos perceptivos, mas ao Unicef. A repetição de série é a norma. Escandaliza o absentismo dos professores, mal pagos e pior educados. Não há contraparte nos lares: as taxas de famílias sem pai são espetaculares, herança da escravidão, segundo algumas interpretações. Apenas 2% dos negros chegam ao ensino superior. Aponta-se que 50% das famílias em estado de pobreza são dirigidas (se isso é possível) por cabeças de família (em desproporção, mulheres) que não têm um único ano de estudo. Não está melhor o nível superior da educação: enquanto a Alemanha desfruta de 30 doutorados por mil habitantes, o Brasil tem apenas 0,6%.
Entretanto, a vantagem comparativa na competição com o resto dos chamados países BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) – com os quais o presidente Lula se reuniu em uma cúpula em Ekaterinburgo, no dia 16 de junho – é que o Brasil, com todos os seus defeitos, é um sistema econômico mundial há mais tempo do que seus sócios nesse curioso grupo. Em seu teatro natural, sua preeminência (ou simplesmente sua presença) não é questionada. Nem o México (com sua proximidade com os Estados Unidos como algo permanente), nem muito menos a Argentina, podem ocupar o lugar ao sul em principio reservado ao Brasil.
Na América Latina, o Brasil é ponto de referencia inquestionável. Ao contrário da Venezuela, que causa receios, silenciados taticamente. Em contraste com a febre de reeleição que afeta o resto da América Latina, Lula, que desfruta de um nível de aceitação invejável, não continuará, nem ouviu o canto da sereia nesse perigoso caminho. Esse comportamento razoável também terá um peso considerável para que o Brasil não continue sendo simplesmente um país de futuro: é um colosso com o qual se deve contar.
* Joaquín Roy é catedrático Jeann Monnet e diretor do Centro da União Européia, da Universidade de Miami (roy@Miami.edu). (Envolverde/IPS) |
Nenhum comentário:
Postar um comentário