quarta-feira, 3 de junho de 2009
Cidade Biz - 4º mês de crescimento da indústria convence que a crise passou. Mas a volta será lenta
IBGE constata o que poucos ousaram assumir: recessão mais curta no Brasil que em outros países
Antonio Machado
Os dados do IBGE sobre o comportamento da produção industrial em abril trouxeram conforto para uma situação que estava clara desde o grande tombo da indústria entre setembro e dezembro, mas poucos tiveram coragem de assumir, entre os quais esta coluna: a recessão da economia real seria mais curta no Brasil que em outros países.
Não seria nem a marolinha prenunciada pelo presidente Lula depois da hecatombe dos mercados financeiros nem a tragédia anunciada por economistas, a maioria apanhada desprevenida pela quebra do Lehman Brothers – a barbeiragem do governo Bush que precipitou o tsunami programado para vir em marolas -, e empresários sempre ariscos.
O governo, a oposição, os empresários e a maioria dos analistas não viram o que vinha adiante, exagerando depois as previsões dos desdobramentos da crise no Brasil, em parte introvertendo os seus efeitos em países mais dependentes de crédito e exportações que a economia brasileira. Refeitos do susto e superada a desconfiança, começam a se recompor com análises mais sóbrias.
A produção industrial cresceu 1,1% sobre março, o quarto aumento mensal consecutivo, acumulando alta de 6,2% sobre dezembro, embora ainda insuficiente para compensar o tombaço de 20% entre outubro e dezembro em relação a setembro. Mas a diferença está se encurtando tanto quanto na comparação sobre igual mês de 2008, agora reduzida para 14,8%.
Daqui para frente, salvo outro retrocesso da economia global, que também parece ter parado de afundar, pior não fica.
Categórica, a consultoria LCA, que desde o início da grande crise não perfilou no bloco majoritário dos pessimistas, diz que começou neste segundo trimestre a saída da indústria do quadro de recessão técnica (dois trimestres seguidos em queda).
Não menos incisivo, o Iedi, Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, diz que “a indústria parou de cair”, abrindo “caminho para recuperação no segundo semestre”. O processo será lento. Aqui e no mundo, até na turbinada China. O que importa é a aceleração em cada canto.
Passado manchou 2009
Para o Iedi, o melhor prognóstico “não significa que a indústria conseguirá, infelizmente, fechar o ano com desempenho favorável”, ainda que a queda tenha se estancado em todas as categorias de uso em abril, inclusive bens de capital (uma medida de investimentos), o mais atingido pela retração da economia desde setembro.
Os ramos com melhor desempenho foram de bens de consumo duráveis (alta de 2,7% em abril sobre março) e de bens de capital (2,6%). O segmento de bens intermediários cresceu em linha com a média da indústria, 1,1%, enquanto o de bens de consumo semi e não-duráveis avançou 0,3%.
Ao se desagregar por atividade produtiva, segundo o Iedi, constata-se crescimento da produção em 16 dos 27 subsetores da indústria pesquisados pelo IBGE, destacando-se veículos (3,3%), metalurgia básica (5,1%) e borrachas e plástico (6,7%).
Crise aguçou os juros
Mesmo o recuo em base anual, 14,8% contra abril de 2008, deve ser relativizado, como faz o Iedi. Primeiro, a base de comparação é muito alta. A produção vinha de expansão de 10% em abril de 2008 sobre abril de 2007, quase um recorde para o mês. Segundo, ao se equalizar o número de dias em cada mês, a queda recua para 13%.
Terceiro, a indústria já se desaquecia pelo desvio da inflação em relação à meta anual, 4,5%, o que levou o Banco Central a elevar a Selic entre abril e setembro de 11,25% ao ano a 13,75%. Só voltou a reduzi-la em janeiro, estando agora em 10,25%.
A crise de fora, no Brasil, gerou um choque sobre um setor que já se esfriava - e menos pela inflação que pelos crescentes déficits externos.
Ao alto só Deus ajuda
Por tudo isso é que a recuperação da indústria ao cenário vivido até setembro será lenta, na média, e para algumas atividades como de siderurgia e mineração talvez demore muito mais para voltar aos níveis de produção anteriores.
A expectativa é que a produção da indústria recue de 7% a 8% este ano sobre 2008. No cálculo do PIB, o efeito será de queda da indústria em torno de 2,6%, supondo-se retração anual de 0,9% da economia (simulação da Tendências).
Outra vez, é preciso cautela na interpretação destes números. Um índice que venha de 100 para 80 recua 20%. Mas para voltar a 100 o crescimento exigido é de 25%. Como diz o ditado, para baixo todo santo empurra. Para cima, só Deus ajuda. O importante é que já se delineia a trajetória, com resultados que transcendem a indústria.
Um passeio para Lula
A leitura dos dados da indústria remete aos do emprego, da renda e inadimplência, todos com tendência de escapar da zona de crise, mas em compasso de procissão, não de uma corrida de 100 metros.
O cenário de crise que poderia favorecer a oposição, porém, tende a perder eficácia, devolvendo ao governo a primazia da promessa de tempos melhores na campanha sucessória antecipada por Lula.
A oposição se fiou no que, para o Brasil, nem nos meses finais de 2008 parecia crível: o lance da recessão duradoura. E ainda padece da relutância do governador José Serra em partir para o confronto. Sem fatos novos a sucessão presidencial será um passeio para Lula."
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