terça-feira, 2 de junho de 2009
Cidade Biz - Construção da economia é mais que câmbio e juros. Mas poucos ousam pensar fora da caixa
Percepção pluripartidária é de ceticismo quanto às idéias de Dilma e Serra, os presidenciáveis no funil
Antonio Machado
À boa safra de esperanças da economia brasileira virá juntar-se no próximo dia 9 uma fruta podre, xepa da crise que parece estar passando: o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre a ser anunciado pelo IBGE. É coisa feia, embora passada, que repercutirá tão menos quanto mais eficiente for o governo para desviar as atenções. O dólar abaixo de R$ 2 é uma possibilidade.
É ruim para o exportador, mas só empresários e economistas falam mal. A classe média adora, já que barateia viagens ao exterior. O sentimento para os segmentos populares, medido por pesquisa, é de coisa boa. Associam com sucesso da economia - portanto, contra os sintomas de crise, como desemprego e inflação desembestada.
Lula já sacou. Os políticos também. Aos poucos preocupados com os canais de venda da produção é que importa elaborar a relação entre o crescimento econômico sustentado e a balança comercial parruda – uma e outra condicionada pela taxa cambial depreciada à falta de fatores de competitividade como poder de mercado para formar preço e/ou custos baixos de insumos e carga tributária, coisas assim.
Por isso, não é hora de o governo falar em repor o Imposto sobre Operações Financeiras, IOF, sobre os ingressos de capitais para as ações cotadas em bolsa ou para aplicação em papéis do Tesouro, até porque não há tanta pressa: a recessão global, mais que os fatores de custos, é que deprime as exportações. Mas isso só por enquanto.
IOF é tributo regulatório sem função arrecadatória como o Imposto de Renda. Economistas do Ministério da Fazenda tratam do assunto. O ministro Guido Mantega está conseguindo conter-se, embora até o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o tenha admitido esta semana, ainda que sob o argumento de que falava em tese.
Virá mais cedo ou mais tarde, se a compra dos excedentes de moeda pelo BC for como enxugar gelo, sem efeito de segurar a valorização do real. Como opção, existe o recurso de reter parte dos ingressos do hot money ou impor prazo mínimo de permanência.
Críticos alegam que tais medidas criam distorções. É verdade, mas podem amenizar a apreciação exagerada e conviver com o regime de flutuação cambial.
PIB pelo retrovisor
Passada a febre, é só desmontar o aparato repressor do hot money. Mais complicado é derrubar a Selic sem conexão com as expectativas inflacionárias.
A possibilidade existe, com as pressões de demanda contidas pela desaceleração econômica, como o IBGE vai explicitar ao anunciar o PIB em queda pelo segundo trimestre seguido. Prevê-se retração de 2,5% a 3,5% sobre o primeiro trimestre de 2008.
É difícil a inflação tomar corpo quando o PIB efetivo está abaixo do chamado PIB potencial, ou seja, a economia operando a toda, mas em situação de estabilidade de preços e salários e contas externas com superávit, ou déficit financiado sem nenhum artificialismo.
Sucesso que confunde
No papel, a economia está um brinco, noves fora desperdícios de recursos fiscais pelo governo em gastos que poderiam ter sido mais espaçados, como os reajustes de salários do funcionalismo, feitos à custa do investimento bancado pelo orçamento e há anos em pífio 1% do PIB.
As expectativas de inflação também estão abaixo da meta de 4,5% este ano e em 2010. Mas confunde a resiliência da inflação corrente: 5,77% em doze meses até maio, maior que em abril.
Dentro dela, a inflação de serviços roda a 7% anual. Inflação e o regime de metas são camisas de força mentais para a formulação do crescimento. Mas num ciclo de governo de oito anos com reeleição até a inflação na meta, 4,5%, sucesso, portanto, implica a perda de poder de compra de 42% - um trauma sem o alívio de reajustes.
Debate empobrecido
A questão da inflação se põe porque tanto para esfriar a entrada de hot money como para ativar a demanda doméstica a crédito baixar a taxa real de juros mais do que o BC cogita é vista como condição em qualquer discussão séria sobre o crescimento.
Empobrece muito o debate, porém, circunscrevê-lo à relação juros-câmbio-inflação.
A maioria dos economistas, empresários e políticos tende para a simplificação, desconsiderando fatores que emperram o PIB tanto quanto a carga tributária. Tipo o quê? Tipo preços de oligopólio em várias atividades, começando pela de insumos básicos. O preço de exportação é descontado, mas não no mercado doméstico.
A construção da economia é mais que juros e câmbio. Só que pensar fora da caixa é um exercício que requer uma coordenação que o governo não dispõe.
Idéias desatualizadas
Entre lideranças políticas esclarecidas do governo e da oposição, setores da tecnocracia e empresários há muita preocupação com a necessidade de oxigenar o debate sobre o desenvolvimento. Trata-se de uma percepção pluripartidária, pois é comum o ceticismo quanto às idéias de Dilma Rousseff e José Serra, os candidatos no funil da campanha presidencial.
O senso é que eles estão desatualizados conceitualmente, além de despreocupados em catalisar um debate - não para a campanha, que é movida a emoções e não a conteúdo, mas para o dia depois da posse em 2011. Receia-se o mais do mesmo sem um plano que toque corações e mentes. Quem sabe o que eles pensam?"
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário