terça-feira, 30 de junho de 2009
Cidade Biz - Ganhou força o ânimo da minoria que projeta até fim do ano juros básicos entre 8% e 8,25%
BC indica inflação abaixo da meta até 2010, o PIB ainda positivo, e acena mais quedas da Selic
Antonio Machado
Já se disse que algo acontece no Banco Central que o tornou menos severo ao apreciar a conjuntura econômica, como se constata, outra vez, com o Relatório Trimestral de Inflação do segundo trimestre.
Instrumento do regime de metas de inflação, o relatório repete o tom mais otimista da ata do último Comitê de Política Monetária ao reforçar a expectativa de mais cortes da taxa Selic, hoje a 9,25% ao ano. O consenso indica mais um corte de 0,5 ponto percentual ou dois cortes de 0,25 ponto, seguido de estabilidade da taxa básica em 8,75% até 2010. O documento admite que se cogite um pouco mais.
No cenário de referência, que pressupõe a continuidade da Selic e da taxa de câmbio atual (9,25% e R$ 1,95), o Banco Central revisou de 4% para 4,1% a variação do IPCA este ano, e de 4% para 3,9% em 2010 - ambas bem abaixo da meta de 4,5% (com tolerância de 2,5% a 6,5%). Para o Produto Interno Bruto (PIB), a previsão do BC caiu de crescimento de 1,2% este ano no relatório anterior para 0,8%.
A projeção é mais otimista que as estimativas correntes. Elas em grande parte apontam para retração da economia na faixa de 0,57%, segundo o relatório Focus, a 1,1%, a aposta do Banco Mundial. No cenário do BC, a indústria recuará 2,2% este ano, puxando o PIB para baixo, assim como a agropecuária, com queda de 0,1%, enquanto o setor de serviços terá crescimento de 2,1%, zerando a recessão.
Num quadro em que a inflação corre abaixo da meta, o PIB rateia e não há grandes riscos de pressões cambiais e de demanda, segundo o cenário de referência de Selic estática a 9,25%, a mensagem é que a janela para mais cortes continua aberta. O ânimo da minoria que projeta a Selic no fim do ano entre 8% e 8,25% ganhou mais força.
É como reflete o economista Fernando Montero. Se, diz ele, 1º, a taxa de juros tem que ser menor para gerar o mesmo crescimento que no pré-crise e, 2º, o crescimento tem de ser maior para reocupar a nova ociosidade, conclui-se o quê? “Que os juros precisarão correr bem abaixo da taxa de equilíbrio por muito tempo, salvo se houver um choque de oferta, pressão cambial ou inflação importada”, diz.
O argumento baixista dos juros está explicitado no relatório do BC, quando reconhece que há “margem residual” - expressão também empregada na ata do Copom -, para afrouxar a política monetária. E reforça ao admitir que o quadro recessivo “criou importante margem de ociosidade dos fatores de produção”. Para o BC, tal cenário não será eliminado “rapidamente”, já que a recuperação será “gradual”.
O novo e o velho BC
O sentimento de confiança de que a economia se afastou para longe da borrasca da crise global é a novidade na interlocução do BC com o mercado. O velho é que nada mudou quanto à ênfase na “postura cautelosa”, visando a “convergência da inflação para a trajetória de metas”, como informa o relatório divulgado nesta sexta-feira.
Onde estariam tais riscos, se ao mesmo tempo essa espécie de mapa prospectivo da política monetária até afirme que, embora se mostre resistente, a retração do mercado de trabalho pode “eventualmente” se intensificar, já que o emprego reage com “alguma defasagem” em relação ao nível de atividade? A ameaça à inflação está adiante.
Hipóteses de riscos
O cenário de riscos para a convergência da inflação à meta no ano que vem, não a de 2008, que está enquadrada pela fraqueza do nível da atividade, é feito de hipóteses. O BC fala de retomada do preço das commodities, sobretudo agrícolas, cujo peso é alto no custo de vida.
Mais importantes seriam os “efeitos cumulativos e defasados” do alívio do juro e crédito sobre a “demanda doméstica em contexto de gradual retomada da utilização dos fatores de produção”.
Traduzindo: cedo ou tarde, mas não agora em 2009, a Selic voltará a subir. A questão é quanto. Na faixa de um digito é o padrão nas economias estáveis. Para isso, porém, ela terá de cair ainda mais.
Harmonizar é a arte
Economia em recuperação com câmbio em retração ou pelo menos sem grande volatilidade e emprego fraco não sugerem pressões de preço.
Ainda que o BC projete início da recuperação neste trimestre, ela vem se dando em ritmo fraco, incapaz de ocupar a capacidade ociosa da produção em poucos meses.
De outro lado, a existência de preços indexados, como das tarifas públicas, retarda o ajuste da inflação à meta, exigindo mais da política monetária tanto quanto a expansão fiscal.
O exercício de harmonizar tais movimentos já foi bem mais difícil. O desafio atual do BC é praticá-lo num ano eleitoral.
Mãos de pianista
A síntese do que informa o BC sugere uma estrada delimitada à sua direita pela concepção de que a economia global marcará passo por muito tempo, o que implica fortalecer o mercado interno, e à sua esquerda pela trajetória da inflação.
No primeiro caso, o choque negativo da demanda exige que a expansão se dê a um ritmo acima do potencial de crescimento sem ativar a inflação. No segundo, trata-se de frear a expansão antes que o uso da capacidade de produção bata no teto.
O freio é a Selic. O desafio é tirar logo a economia do desvio. O risco é a inflação repicar em meio ao jogo eleitoral de 2010. A operação vai exigir mãos de pianista e muita arte."
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