quinta-feira, 25 de junho de 2009
Eleja-se quem for, difícil ao sucessor será ocupar a sensação de vazio que Lula vai deixar
À falta de quem o confronte, tem o palco todo para si e o ocupa com eficiência. Os adversários que se virem
Antonio Machado
A afirmativa de que o presidente Lula está em campanha soa como a descoberta da pólvora, já que nunca desceu do palanque. Ele faz do verbo nem sempre bem flexionado, muitas vezez propositalmente para mostrar-se identificado com as suas raizes populares, a maior das realizações de seu governo. O que diz nem sempre é para ser levado a sério. Não se pode é ignorá-lo, pois palavras têm consequências.
Ele exagera, torce e retorce os fatos, e há tempos aprendeu como vacinar-se das críticas. Acusa a imprensa ora de ocultar as coisas boas do governo, ora de aliar-se à oposição, ora de escandalizar o noticiário político, que a denúncia dos malfeitos cometidos pelos aliados governistas seria seletiva. E assim ele vai, alternando-se no papel de vítima e de defensor dos fracos frente aos poderosos.
Não há um dia em que não tenha espaço generoso de mídia, ampliado pelo noticiário sobre as realizações do governo. E, no entanto, os assessores e boa parte do PT se queixam de má vontade da imprensa.
É mais tática para equilibrar o tom, embora as críticas provoquem insatisfação real. Os tucanos também não gostam de críticas. Uns e outros querem que só se fale mal do adversário. E vida que segue.
Escolha-se qualquer dia, e o roteiro desempenhado por Lula estará lá, com variações de tom para não cansar a audiência. A certeza de exposição na imprensa, que seria incerta caso se limitasse ao que determina a agenda, como assinar uma ordem de serviço e descerrar pedra inaugural de obra nem sequer iniciada, é dada pelo inusitado de suas intervenções. Rendem manchete na certa. Nisso ele é único.
É exercício de marketing político e de convencimento do eleitor, nada que seus antecessores e adversários não tenham feito e façam. A diferença é que ele faz melhor, combinando como nenhum outro a distribuição das políticas públicas entre vários setores, desde o industrial à frente de obras caras até simples acampados à espera de um lote de terra. Com Lula nenhum grupo político está órfão.
Os outros não temperaram tão bem tais ingredientes misturados ao que sai do orçamento fiscal e dos créditos dos bancos estatais. A idéia é essa: um bombom para cada público. Ele diz que nunca antes se fez isso ou aquilo, mesmo sabendo falso, como quando afirma ser o primeiro presidente a olhar para os pobres.
Lula já reconheceu a primazia histórica de Getúlio Vargas no campo social. Mas quem se importa? À falta de quem o confronte, tem o palco todo para si e o ocupa com eficiência. Os adversários que se virem.
Arroubos inofensivos
Até agora tais arroubos foram inofensivos. Praticamente livre na arena política, devido à relutância dos candidatos da oposição a sucedê-lo em desafiar sua popularidade, ele começa a exagerar, sem atentar para as consequências.
Ao acobertar as malfeitorias de seu aliado José Sarney, presidente do Senado e cacique de uma das alas do PMDB, Lula deslegitima na soleira de outra campanha eleitoral o já enfraquecido discurso ético do PT. Fosse outro e levaria pedra por dizer que Sarney não pode ser tratado como uma pessoa comum.
E voltou à carga, censurando a imprensa por dar mais destaque aos escândalos do Senado que à criação de 131 mil empregos líquidos em maio. Para ele, a imprensa “tem uma predileção pela desgraça”. Mas a roubalheira no Senado não é outra coisa que não isso, desgraça.
Impunidade consentida
Como antídoto contra os desvarios do Parlamento, Lula propõe que se faça a reforma política e dos partidos, porque, se “continuar como está, será muito difícil evitar que essas coisas aconteçam”.
Ele está certo, mas não será feita, pelo menos nesta legislatura, e os desvios no Congresso estão aí: uns sabidos, outros à espera de interesses contrariados que os denunciem.
Fundamentalmente, os assaltos se devem não à legislação caquética e sim à leniência na aplicação das leis que já existem e com os infratores - como Lula de alguma forma tem feito sempre que algum aliado tropeça na lama.
Desgraças que ajudam
Tais desgraças que ele diz não merecer que virem “causa nacional” no fim até lhe ajudam. Elas minam criadores de problemas, como os aliados gulosos do PMDB no Senado – mão invísivel na concepção da CPI da Petrobras. Ele também se destaca como magistrado diante da agonia do Congresso.
Destaca-se tanto que até se esquece que a sua desenvoltura recente é para tornar conhecida sua eleita para vir a sucede-lo, a ministra Dilma Rousseff. Eleja-se quem for, o difícil ao sucessor será preencher a sensação de vazio que ele vai deixar.
Lado escuro da força
Intuitivo, Lula sabe o que virá, se a atenção nacional focar com lupa a situação do Senado: o descrédito total nas instituições. Os senadores também sabem, como antes deles os deputados.
Bastou que o escândalo da distribuição de passagens saísse do noticiário para que os envolvidos na farra fossem isentados de ressarcir a Câmara pelo presidente da Casa, Michel Temer. Logo tudo será esquecido. É no que virou a política: meio de vida, não o ônus da representação cívica, transformada em exceção.
O Congresso é o retrato ampliado das 27 Câmaras estaduais e 5.563 de Vereadores, e dos executivos. A revelação do lado escuro da política é o que eles querem evitar.
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