terça-feira, 28 de julho de 2009


Antonio Machado
Como peixinho-gari de aquário, Lula limpa a barra de aliados, mas com Sarney está sujando a do PT

Imbróglio do Senado não prenuncia final feliz para ninguém e opõe senadores petistas ao Planalto

27.07.2009 - 18:59

Antonio Machado

Ouvindo-se o presidente Lula defender o senador José Sarney, cada vez mais enrascado por denúncias, uma mais séria que a outra, e lá se vão quase dois meses de devassa de sua Presidência do Senado, a sensação é que há mais em jogo que a solidariedade a um aliado.

Lula já dera provas de que estende a mão a aliado enrolado. Deu-a aos petistas enredados no escândalo do mensalão, alvo de processos no STF. Não renegou o ex-ministro José Dirceu depois de cassado na Câmara. Não recriminou os petistas envolvidos com o dossiê fajuto antitucano na eleição de 2006, chamados apenas de “aloprados”.

Apoiou o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti, que só não perdeu o mandato porque renunciou, acusado pelo concessionário do restaurante da Casa de cobrar propina. Abraçou em público o seu algoz na eleição de 1989, o hoje senador Fernando Collor. Atitudes assombrosas vindas de quem quando deputado constituinte disse que havia na Câmara “300 picaretas” - e pôs em dúvida a idoneidade dos rivais em todas as eleições de que participou desde 1989.

Não concorreu contra Sarney, que se fez presidente da República por obra do destino, vice que era de Tancredo Neves, morto antes de assumir. Mas em discurso em setembro de 1987, em Aracajú, que virou hit no You Tube, desancou Sarney como “grande ladrão”.

Ou Lula se vale de que boa parte dos políticos, inclusive os que querem a cabeça do presidente do Senado, algum dia pediu favores ao governante de turno, arrumou sinecura para parentes e advogou interesses privados em órgãos públicos - acusações imputadas a Sarney, algumas flagradas em áudio -, ou avalia que o intangível do latifúndio peemedebista na sucessão justifica sacrificar o PT.

O temor do lulismo é que o PMDB se divida, negue apoio formal à ministra Dilma Rousseff, impedindo a apropriação do tempo de TV do partido, seu grande ativo da hora, e um gordo quinhão se entenda com José Serra, possível candidato do PSDB. O risco existe, e não é outra coisa o que Sarney insinua que vai ocorrer se for largado por Lula, única razão de o PT ainda não ter saltado fora.

Pelos senadores do partido, que não absorveram a derrota de Tião Viana na disputa pela direção do Senado no início do ano e ainda choram o desdém de Lula, que deu apoio tácito a Sarney, o desfecho seria assim: Sarney se licenciaria durante as investigações das malfeitorias na Casa. O líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante, levou a proposta, endossada pela bancada. Lula mandou recuar.

O estrago está feito

O imbróglio não prenuncia um final feliz para ninguém. Mesmo que escape de um processo no Comitê de Ética do Senado, hoje bastante provável, já que presidido por um senador segundo suplente, Paulo Duque (PMDB-RJ), alinhado com Renan Calheiros (PMDB-AL), principal articulador da blindagem de Sarney, o estrago na base aliada está feito.

O próprio Sarney, dificilmente, recuperará as condições de liberar a Casa - e menos ainda enquanto a sua gestão, assessores, filhos, sobrinhos, netos estiverem sendo investigado pela Polícia Federal e o Ministério Público. Muitos senadores da base aliada já temem pela reeleição. O PT insiste. Só Lula se vê inatingível.

Custos & benefícios

Conforme a indagação de um líder petista - no anonimato, para não se confrontar a Lula -, “será que o apoio a Sarney para garantir a adesão do PMDB a Dilma compensa todo o desgaste do PT?” Lula deve achar que sim. No PT, não há essa certeza.

Vai caindo no partido a ficha de que o PT se torna uma legenda a mais dentro do lulismo, e assim é tratado por Lula. No momento, a atração do PMDB para Dilma é a prioridade - e risco.

Nunca o peemedebismo precisou unir-se em eleição presidencial. Basta esperar o vencedor. Ele virá mansinho, mesmo que não queira, no primeiro susto que tomar no Congresso.

Razões dos oligarcas

O tipo de política de Sarney desde antes do golpe militar de 1964 - com o qual cresceu no Maranhão e se projetou chegando a presidir o PDS, sucessor da Arena, o partido dos militares, que virou PPB e hoje PP, da base lulista, afora a dissidência do PFL, atual Dem -, é conhecida.

Sempre próximos ao poder, a motivação dos oligarcas é levar vantagem em negócios com o Estado. Lula conhecia tal volúpia - tanto que em 2002 desautorizou Dirceu a se compor com o PMDB em troca, então, de dois ministérios.

Depois do mensalão e reeleição, ficou maleável. Pagou mais caro pelo PMDB e até passou do ponto: escora Sarney com aparente convicção. E o seu PT? Ora, é dele...

Fornalha das crises

Na fotografia da crise política, que hoje é do Senado, antes fora da Câmara depois de ter sido do governo, há uma constante: disputa pela partilha e direcionamento do dinheiro fiscal e influencia em decisões, misturando-se as razões de partidos organizados, como PT e PSDB, com as de oligarcas e grupos de pressão dentro de bancadas de deputados e senadores.

Tudo isso são sinais de transparência do poder opaca e de institucionalidade entupida. Tome-se a CPI da Petrobras, parte dos motivos do faroeste no Senado: o grosso das ações diz respeito a gastos típicos de orçamento fiscal da estatal, decididos segundo a lógica de empresa privada. Ou isso muda ou as crises não acabam.


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