quarta-feira, 1 de julho de 2009

É preciso financiar os novos negócios sustentáveis


Por Fabrício Ângelo, da Envolverde

O surgimento de um novo modelo econômico, com base na crescente consciência da sociedade em relação às questões ambientais, demanda novas oportunidades de mercado.

“A temática do aquecimento global é o foco atual da economia e quem investir nesse segmento pode se dar bem”, de acordo com o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA) e articulista do jornal Valor Econômico, José Eli da Veiga, um dos palestrantes do seminario da Febraban, realizado ontem (30/06), em São Paulo . Mas, para ele, apesar disso, e dos incentivos gerados pelo Protocolo de Kioto aos negócios sustentáveis, principalmente através dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), ainda muito pouco se faz em relação a diminuição de lançamentos de gases efeito estufa.

Citando pesquisa divulgada pela Scientific American Brasil, Veiga observa que “quase dois terços dos projetos aprovados de MDL não contribuem em nada para a mitigação. E como podemos exigir que uma instituição financeira possa julgar isso?”, questionou. O professor da USP defendeu a regulação das atividades consideradas insustentáveis. “A regulação pode impulsionar um novo modelo de consumo de baixo carbono ao mesmo tempo em que dá a oportunidade para o surgimento de novos negócios”.

Ele lembrou a aprovação da legislação de mudanças climáticas dos Estados Unidos, que ocorreu esta semana na Câmara, e que gerou o medo de que um protocolo contra o aquecimento global possa se tornar em protecionismo.. “Há um receio, inclusive da Organização Mundial de Comércio (OMC) quanto a exigência de medidas sustentáveis dos exportadores. O problema é que não há visão de longo prazo, pois com certeza novas oportunidades de negócio vão aparecer se essas medidas forem implantadas”, declarou.

O pesquisador Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), reiterou que as finanças sustentáveis são um grande desafio para o sistema bancário brasileiro. De acordo com ele, os bancos, financiadores dos meios de produção, são primordiais para políticas de preservação do meio ambiente e diminuição da desigualdade social. “Estamos vendo muitos bancos se apropriarem do conceito de sustentabilidade, e vejo isso com bons olhos, desde que não seja apenas um merchandising. É importante que essas instituições tragam esses conceitos para dentro sua política de negócios”, afirmou.

Nobre disse que, principalmente na região da Amazônia, são poucas as agencias que conhecem os quesitos do protocolo verde. “Na Amazônia, lugar de importância indiscutível, ainda não há a cultura da sustentabilidade. Sei que é um processo demorado, mas é imprescindível que essa lógica chegue a todos os níveis das instituições”. Em sua opinião o setor bancário tem de aprender a pensar a longo prazo e perceber que grandes oportunidades virão, pois a agenda ambiental já é uma preocupação global para os próximos 50 anos.

“Uma nova economia surgirá e com ela novas opções de investimento, e o país tem potencial para liderar esse nicho. Ainda estamos aquém do que podemos produzir e o setor bancário pode ser um instrumento para alavancar essas oportunidades. Em pouco tempo as externalidades entrarão no valor do Produto Interno Bruto, e temos de estar preparados para não ficarmos em déficit”, declarou Nobre.

Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Lauro Gonzales concordou com os palestrantes, e acrescentou que é preciso maior precisão na conceituação de finanças sustentáveis. “Tenho dificuldade em entender o atual conceito; é preciso algo mais denso. Isso pode abrir novos caminhos tanto na área acadêmica quanto na comercial”, disse. Conforme Gonzalez os conceitos de finanças e sustentabilidade ainda são vistos de forma separadas. “Tudo ainda gira em torno de bancos; é preciso mais pesquisas e teoria sobre a temática, principalmente nas escolas de Economia”, finalizou. (Envolverde)


(Agência Envolverde)


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