terça-feira, 11 de agosto de 2009

Cidade Biz - Sem medo de polêmica e com estilo provocador, FMI estreia blog para discutir assembleia anual

Sinal dos tempos: entidades condicionadas à delicadeza de suas atividades abrindo-se de forma tão assombrosa

Antonio Machado

Quem diria... O Fundo Monetário Internacional, o conservador FMI, avesso a novidades, como dizem seus incontáveis críticos, aderiu à blogosfera. E o fez comme il faut, sem medo das opiniões alheias e das febris polêmicas do espaço livre da grande rede, convidando o distinto público a discutir com sua direção e economistas a agenda da assembléia anual conjunta com o Banco Mundial, programada este ano para Istambul, Turquia, no início de outubro.

“FMI convida para debater os próximos passos, entre os sinais de enfraquecimento da crise,” anuncia em seu primeiro post o blog, batizado de “IMF Direct” (blog-imfdirect.imf.org). O blog já tem três notas, todas postadas pela diretora de Relações Externas do FMI, Caroline Atkinson, um dos oito dirigentes que vão animar as discussões. Lançado no dia 3, até agora só houve uma participação.

Um internauta indaga se não é “um pouco contraditório” o título do post inaugural sugerir que as coisas estão melhorando e adiante enfatizar que o desemprego ainda cresce ao redor do mundo. Ainda não houve resposta. Talvez leve algum tempo para que os blogueiros do FMI se adaptem à etiqueta da web, que recomenda não deixar nada sem resposta nem demorar em responder, e aceitem ponderações.

Não se descarta a pouca divulgação. O blog, assim como o do Banco Mundial, Crisis Talk (crisistalk.worldbank.org), que o inspirou, é pouco conhecido, embora traga análises de grande qualidade sobre a crise financeira e mercados emergentes. Infelizmente, em inglês.

O sinal dos tempos está aí: entidades complexas e condicionadas à delicadeza de suas atividades abrindo-se de forma tão assombrosa, iluminando opiniões e conceitos até então reservados aos governos que os compõem.

O FMI é constituído por 186 países, só menor que a estrutura da Organização das Nações Unidas. Qualquer excesso pode provocar uma crise política. Seu blog revela preocupação em chegar mais perto da opinião internacional, não em contrapô-la - objetivo do blog da Petrobras, por exemplo, lançado como resposta à CPI do Senado, sem a intermediação da imprensa e até para arrostá-la.

Resultado é divertido

O blog do FMI parece querer provocar, não em defender princípios, estando aí uma novidade sem paralelo em organismos multilaterais. O resultado é até divertido. “Depois de evitar uma segunda Grande Depressão”, provoca outro post, “o que os políticos deveriam fazer para fomentar a recuperação?”

É uma questão aberta, que faz parte da agenda da assembléia anual. A autora brinca com as respostas, o que também é novidade: o pessoal do FMI ter jogo de cintura.

“Os formuladores de políticas econômicas raramente são populares. Dirigentes de banco centrais são notórios em remover a bebida da festa. Ministros de Finanças são tradicionalmente os que dizem não aos colegas com projetos dispendiosos.”

A definição da diretora do FMI é na medida. Mas ela coincide com a do pessoal do Fundo - que “vinham aqui ditar regras”, como já criticou o presidente Lula.

Ortodoxia caricaturada

O que mudou? Segundo o post do IFM Direct, “ministros de Finanças e diretores de bancos centrais ao redor do mundo mudaram de lado, no mundo de cabeça para baixo dos últimos meses”. E caricatura os guardiões da moeda e do caixa: “Eles se tornaram chefes de torcida das políticas expansionistas”.

Foi uma crítica? Nada. Deixe só os ministros Henrique Meirelles e Guido Mantega saberem disso.

O FMI, também adaptado ao mundo virado, segundo a nota, bateu-se “fortemente” pelas políticas públicas anticíclicas, mas desde que “os países tivessem espaço para tomar mais dívida”. Isso é o que o FMI sempre recomendou. Fazia-o, porém, mandando e de cara fechada.

Recado duro com graça

O clima “folgado” de um blog permite que se diga a mesma coisa com graça, sem imposição: ou seja, que a responsabilidade fiscal não é uma figura de linguagem. E no que deram tais políticas? Para o FMI, “apesar de alguns soluços, parece claro que todas as ações extraordinárias dos governos pelo menos pararam o deslizamento da economia”.

“As projeções podem não ser tão brilhantes quanto os recentes movimentos do mercado poderiam sugerir”, diz o blog, “mas o risco de difusão do colapso financeiro diminuiu notadamente”.

Do lançamento da internet em grande escala nos EUA em 1992 à sua introdução no Brasil em 1996 - com este escriba tomando flechadas à frente do então Brasil Online -, a rede se tornou ubíqua. O FMI acordou. Tarde, mas acordou. Ninguém nem nada podem ignorá-la.

Fracasso de Bill Gates

A internet é um fenômeno de massa mais que uma ferramenta para as comunicações. Não param de surgir desdobramentos, como as redes de relacionamento. Nada cresceu tanto, apesar da miopia de alguns em sua fase pioneira, como os donos do BOL, que preferiram incorporá-lo ao UOL, e até de Bill Gates, então menino de ouro da Microsoft.

Gates supôs que o modelo aberto da web seria inexequível. Batido, tentou apoderá-la com o Internet Explorer. Fez pior. Quis vendê-lo, injuriando a concepção livre de uma tecnologia originalmente militar e disseminada não por motivações da indústria de software, PC ou telefonia, mas por ideais libertários.

O desconhecimento da magia inicial da web explica tanta incompreensão sobre ela."

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