segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Cidade Biz - Economia, Marketing e Negócios - Lula e Meirelles pedem investimentos. Temem descompasso entre demanda bombando e oferta


Lula e Meirelles pedem investimentos. Temem descompasso entre demanda bombando e oferta

Problema cíclico é calçar pés da propensão ao consumo tamanho 42 no sapato da produção número 38

Antonio Machado

Os apelos do governo aos empresários para que retornem a investir devem ser levados a sério. A saída da recessão está se dando a uma velocidade maior do que se esperava - e isso é bom. Mas a volta da expansão da oferta, interrompida pelo agravamento da crise externa depois de setembro de 2008, não vem no mesmo ritmo - e isso é mau.

O problema recorrente, desde a superação das doenças primárias da inflação endêmica e vulnerabilidade externa – mérito dos governos FHC, que iniciou o tratamento, e de Lula, que o aprofundou com a acumulação de reservas de divisas em volume maior que o da dívida nacional -, é calçar os pés da propensão ao consumo tamanho 42 no sapato da oferta de número 38.

A capacidade de produção nacional já foi muito menor, e crescia a um ritmo chinês até que o crédito surtou, a economia global caiu em recessão, e a banca e a indústria brasileiras pisaram no freio.

Demanda em alta tendendo a passar a oferta, que corre atrás para atendê-la com importação e investimento para aumentar a capacidade de produção, termina mal se a indústria não corresponder, deixando ao fornecedor externo o filé mignon do ciclo de expansão. Devido à recessão, hoje a economia opera com hiato de produto - o jargão do economês para denominar a capacidade ociosa vis-à-vis a demanda.

Quando a oferta perde para a demanda, surgem os déficits externos e pressões inflacionárias, que o Banco Central enfrenta operando a Selic, e com menor frequência os mecanismos de reservas bancárias e do depósito compulsório, para encarecer e reduzir o crédito e, com isso, o acesso ao consumo. A dinâmica dos gastos privados não justifica um cenário contracionista. Nem antes da crise nem agora.

O que poucos dizem é que o gasto público há anos, e especialmente nos dois mandatos de Lula, à exceção de 2003, cresce em ritmo de rock pauleira. É o que gera o descompasso, à falta de investimento para ampliar a oferta dos bens demandados pela sociedade, que leva o BC a esfriar o gasto privado para acomodar na economia o gasto público e impedir que o desequilíbrio entre consumo e produção não tente os fabricantes e o comércio a fazê-lo via preço.

O momento econômico tende para este cenário, indesejado pelo BC e o seu presidente, Henrique Meirelles, que reflete com seus botões sobre a conveniência de sair candidato a alguma coisa nas eleições de 2010. O presidente Lula também não o aspira.

Político sabe que juro em alta não é fermento de votos. E Selic em dieta de engorda em 2010 é o que já precifica o mercado futuro de taxas de juros.

Sequelas pós-recessão

A aposta de a Selic, estacionada em 8,75%, vir a se encorpar com 0,5 ponto de percentagem até outubro de 2010 parece um exagero de gente pervertida.

Mas se a economia seguir rodando a quase 10% ao ano anualizada (ela saiu da recessão no segundo trimestre girando a 7,8% ao ano), o chamado Produto Interno Bruto (PIB) potencial só dará conta de um pedaço da demanda, incluído nesse espaço a parte que cabe à exportação, que tenderia também a encolher.

Agora não por causa da recessão global, que perde pique, mas porque para a maior parte da produção é mais tentável vender no mercado interno.

Pai ranheta e liberal

Estes momentos contraditórios da economia, que aparecem quando os sinais são de que tudo está bombando – crédito, vendas, emprego, a renda – e o BC intervém como pai ranheta que manda baixar o som da festinha dos filhos, saltam da entrevista de Lula ao Valor.

Como o BC, Lula diz que a “inflação controlada é condição básica para o resto dar certo”. Como pai liberal, ele arremata: “Então, é manter a inflação controlada, a economia crescendo, (...) o crescimento do crédito”.

Olhando para o umbigo

Economia crescendo não é só gente comprando, é gente produzindo cada vez mais, num país com mercado em formação e ascensão social.

A estagnação é para Suíça, Noruega, que nem têm onde pôr a renda gerada por suas economias. O investimento, portanto, é prioridade. Mas aqui é tributado, paga imposto antes que as máquinas cuspam um prego - e assim é não por perversidade do governo e do legislador, e sim porque a despesa pública excede sempre a receita, razão pela qual a cara tributária é alta e as desonerações pingam em gotas.

Quanto a isso Lula diz que “a gente não deveria ficar preocupada em saber quanto o Estado gasta”. Ou seja, para ele não há nexo do gasto público com o peso dos impostos.

Não há na retórica, mas na parte da produção clama por investimentos privados, acompanhado de Meirelles, do BC, para quem o empresário deve “olhar para frente”.

São homens de visão. Ainda que só vejam um lado da equação.

O roto e o esfarrapado

Não por acaso, Lula foi dos primeiros a instar o empresariado a investir, porque, segundo ele, “quem sustentou essa crise foi o governo e o povo pobre, porque alguns setores empresariais pisaram no breque de forma desnecessária”. É verdade. Mas relativa.

O que foi travado é a expansão, que, aliás, o BC visava moderar, com o consentimento de Lula, ao subir os juros desde o início de 2008 e só afrouxá-lo a partir de janeiro passado.

Esse pito moralista tem utilidade apenas eleitoral. A economia precisa é de políticas que priorizem o investimento, como na Ásia, e uma penca de empresários empreendedores. Ambos as coisas são interdependentes e escassas."

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