domingo, 20 de setembro de 2009

Cientistas políticos apontam contradições em pesquisa sobre corrupção da UFMG

Contas Abertas: "Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que 72% dos brasileiros acreditam que a corrupção aumentou nos últimos cinco anos. A mesma análise mostra, entretanto, que 75% das pessoas não consideram ter havido um aumento da corrupção, e sim “da apuração dos casos escondidos”. Enquanto isso, 43% dizem que os recentes casos de corrupção estão ligados ao governo Lula e apenas 15% afirmam que “durante o governo Lula houve grande aumento da corrupção no país”. Para Fernando Filgueiras, pesquisador do Centro de Referência do Interesse Público (Crip) da UFMG e um dos responsáveis pela pesquisa, não há contradição nos resultados. Para o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Ricardo Caldas, no entanto, o estudo é tendencioso e induz o favorecimento do atual governo, crítica em parte compartilhada pelo professor de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Bruno Speck.

A segunda edição da pesquisa “Interesse Público e Corrupção” foi realizada pelo Crip da universidade federal mineira em parceria com o Instituto Vox Populi, que ouviu 2.400 brasileiros em todas as regiões do país entre 11 e 18 de julho. “Dizer que a corrupção não aumentou, e sim a apuração dos casos escondidos, é o lema do atual governo”, analisa Ricardo Caldas. Para o cientista político, o governo Lula tem sido perdoado e poupado. “A tendência das pessoas é não julgar o atual governo, porque, de certa forma, ele acabou banalizando um pouco a corrupção. Então as pessoas acham que tudo o que acontece é normal”, diz.

O pesquisador da UFMG rebate e afirma que o brasileiro percebe que algo está sendo feito e que os mecanismos de controle da corrupção têm atuado no sentido de coibir a prática da corrupção. “Se você amplia a atuação dos mecanismos de controle, a população percebe”, afirma Filgueiras, que também é cientista político. Ele acredita que a popularidade do presidente Lula não indica que a opinião pública o proteja. “A opinião pública atribui a corrupção ao Estado, mas a sociedade tem plena consciência de que isso não significa uma relação direta com o governo Lula. Ela sabe distinguir os casos e percebe quem são seus atores”, acredita.

Também autor de pesquisas acadêmicas sobre a percepção dos brasileiros quanto à corrupção, Ricardo Caldas julga impróprio o cunho político nas perguntas do Crip, especialmente quando faz referências ao nome do presidente Lula. “Não sei se o governo está pagando por essa pesquisa, mas ela é mal produzida e as perguntas não são acadêmicas. São perguntas tendenciosas e direcionadas”, critica. Filgueiras defende o método utilizado e acredita que se a afirmação que se refere ao presidente fosse substituída por “durante o atual governo houve grande aumento da corrupção no país”, não haveria mudança significativa nos resultados. “Testamos a pergunta dessa forma e não houve alteração dos resultados”, declara.

Mas, para o professor de ciência política da Unicamp Bruno Speck, algumas perguntas da pesquisa da UFMG induzem os entrevistas a responder de determinada maneira. Ele cita como exemplo a pergunta de que a corrupção aumentou muito nos últimos cinco anos e em sequência uma de que o problema não aumentou, mas o que cresceu foi a apuração dos casos durante o governo Lula. 'Neste caso, a pesquisa sugere uma resposta que 'corrige' a questão anterior. Verifica-se, ainda no decorrer do estudo, que a própria Presidência da República, por exemplo, recebe nota 6,89 quanto à existência ou não de corrupção no órgão. Essa nota fica acima da média dos outros 25 setores e instituições listados na pergunta', afirma.

'É claro que há uma metodologia e uma sequência planejada na formulação das perguntas, mas observando a pesquisa na íntegra, verifica-se que ela não segue, em determinados momentos, um padrão se comparada a outros estudos sobre o tema', diz. Speck também acredita que uma pergunta sobre como é vista a corrupção - muito grave, grave, pouco grave, etc. - deve agregar outros itens como desemprego, segurança pública e saúde. 'É difícil algum brasileiro responder que a corrupção no país não é um problema grave', diz.

Em relação à edição do ano passado, a pesquisa mostra que caiu de 77% para 73% o número de entrevistados que encaravam a corrupção como sendo “muito grave” no Brasil, enquanto subiu o percentual dos que consideram o problema apenas “grave” – de 20% para 24% (Veja quadro comparativo com os principais resultados de 2008 e 2009).

Caldas acredita que a variação dos resultados pode representar uma mudança na percepção do brasileiro sobre a gravidade da corrupção. “Houve uma banalização da corrupção. Hoje ela é considerada aceitável no cotidiano das pessoas”, lamentou. Já para Filgueiras, a alteração dos percentuais não representa um resultado estatisticamente relevante. “A mudança é residual. Em outras palavras, podemos dizer que a opinião pública brasileira tem uma visão consolidada a respeito da corrupção, porque não houve uma mudança significativa de um ano a outro”, afirma.

Outra mudança estatística de 2008 para cá foi a queda do percentual de entrevistados que julgavam mais corruptos os atos praticados por funcionários públicos ou políticos (de 45% para 39%) e atos cometidos por qualquer pessoa (de 30% para 26%). Aumentou, porém, a percepção de que todos são igualmente corruptos. Caldas pondera que estes resultados podem ser vistos de duas formas. “Negativamente, na medida em que você admite que todo mundo é corrupto e que isso sempre será assim. Por outro lado, esse resultado mostra a conscientização das pessoas sobre a corrupção e sobre a necessidade de mudanças. Agora, os dado em si não garante que alguma coisa deva ser feita”, diz.

Filgueiras explica que uma informação importante é o fato de o cidadão atribuir a corrupção mais ao mundo público e estatal brasileiro e menos à esfera privada. “Creio que seja essa a marca da cultura política no Brasil de hoje. Isso ocorre muito pela sensação de impunidade, pelo descrédito nas instituições políticas”, explica.

Parcialidade da mídia e atuação dos órgãos

A pesquisa mediu também o grau de imparcialidade da mídia na cobertura dos casos de corrupção. No ano passado, 60% dos entrevistados consideraram a cobertura da mídia imparcial e 26% consideraram-na parcial. Este ano o percentual dos que consideraram a mídia imparcial caiu para 42%, enquanto os que a consideraram parcial aumentou e chegou a 39%. Fernando Filgueiras avalia que a mídia informa “muito pouco” sobre os casos de corrupção. “Ela cria o fato e só isso. A sensação da opinião pública é de informações contraditórias e incompletas. Isso tem sido muito comum no Brasil”, afirma o cientista político.


As ações de combate à corrupção também foram postas a prova na pesquisa. Dos entrevistados que conheciam a atuação da Polícia Federal (1.674), por exemplo, 84% disseram que as operações da PF ajudam a combater a corrupção. Cerca de mil pessoas admitiram conhecer ou ter visto notícias sobre ações do Judiciário para combater esquemas de corrupção no Brasil, embora nem todos (76%) confirmem que essas ações ajudam a combater efetivamente o problema. Para os que conhecem as ações de combate por parte do Congresso Nacional (1.474), 69% afirmam que a instituição também ajuda no combate a corrupção.

Filgueiras destaca que há uma “espetacularização” das ações da Polícia Federal, enquanto o Judiciário está nos holofotes da mídia e o Congresso tem sido enxovalhado com os casos de corrupção. Contudo, de acordo com o pesquisador, poucos foram os casos de punição. “Essa sensação de impunidade que paira sobre o Brasil torna a percepção da opinião pública muito flutuante. Nos últimos meses, é de se notar que o Judiciário não tem sido presente na cobertura dos casos de corrupção. Logo, a opinião pública percebe que não há informação suficiente e, como ninguém é punido, nesse caso, o Judiciário é afetado”, conclui.

Em relação ao ano passado, a mais recente edição da pesquisa mostra que diminuiu o número de pessoas que ficaram sabendo sobre as ações do Judiciário para combater esquemas de corrupção no Brasil (de 56% em 2008 para 46% este ano).

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Milton Júnior e Leandro Kleber
Do Contas Abertas"

2 comentários:

Anônimo disse...

Esses caras do Contas Abertas são uma piada!!! Eles não conhecem a pesquisa da UFMG e levantaram uma série de dúvidas. Esse professor Ricardo Caldas é um picareta. Aproveita-se de recursos públicos para escrever livros que ninguém lê...

JH INSPEÇÕES disse...

Caro Anonim, muito prazer em desconhece-lo, sua critica esta publicada, mas.... não custa nada identificar-se
Um abraço

J hilton