sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Cidade Biz- Real forte resgata temores sobre a vantagem industrial do país e o elevado custo Brasil

Se o dólar cai até quando o fluxo líquido de divisas é negativo, problema não é o câmbio flutuante

Antonio Machado

O bate bumbo sobre a valorização do real está de volta ainda mais barulhento que no ano passado, quando a taxa cambial resvalou em R$ 1,50 antes do agravamento da crise externa em setembro, e desta vez com muito mais fundamentos para o dólar cair feito pedra.

O inédito afrouxamento monetário e fiscal em escala global sustou o aprofundamento da recessão no mundo e em especial nos EUA, onde a economia também parou de cair, trazendo de volta a mobilidade de capitais de curto prazo que se entrincheirara no dólar.

A perda da atração de segurança dos papéis do Tesouro americano, já que a de rentabilidade não havia desde que o Federal Reserve, o Fed, trouxe para perto de zero a taxa de juros de curto prazo, foi a senha para reabrir os mercados financeiros que andavam travados.

E é ai que o Brasil, entre outros, reassume o protagonismo que já desempenhava antes da crise, reforçado agora com a última comenda de grau de investimento que faltava entre as três grandes agências de rating do mundo. A Moodys’s desistiu do pé atrás em relação ao Brasil, classificando a economia como “vencedora” na crise global.

O teste final está na rápida saída da recessão, que durou somente dois trimestres, impelida pelo consumo, que não esmoreceu, e pela volta da ocupação da capacidade instalada da indústria, indicando o fim da fase de ajuste de estoques. O retorno dos investimentos na produção, apesar da relutância empresarial, é questão de tempo.

É o que falta para dar ao Produto Interno Bruto (PIB) uma grande dianteira sobre as demais economias em 2010. Daí para frente, vai depender de como a relação entre câmbio, juros e gastos públicos se comportará. O conjunto da obra favorece a percepção de que o risco estará mitigado pelo menos até o ano que vem, de eleições.

Num quadro assim, o reconhecimento atrasado da Moody’s tem valor apenas simbólico. “Ele consolida um erro temporal cometido por não ter sancionado este fato concreto no momento correto, e que agora se configura como oportunista por ser o primeiro depois da crise e o país ter posto os fundamentos à prova que tanto a Standard & Poor’s e a Fitch já haviam validado”, diz o economista Sidnei Moura Nehme, da corretora NGO. “Para não ser rigorosamente igual, colocou a nota de risco em perspectiva positiva.”

Cautela com o momento

Portanto, segundo este especialista em questões cambiais, não se deve esperar a mesma reação havida no ano passado quando ocorreram os outros dois diplomas de grau de investimento, o do S&P e Fitch. “Acreditamos mesmo que este evento já estava precificado”, diz.

Para Nehme, “é preciso observar com cautela o momento”. Não se deve perder de vista, diz, a nota da Fitch divulgada discretamente pela imprensa sobre se a capacidade de financiamento do governo não será afetada, diante do gap entre gastos públicos maiores e receitas tributárias menores, ainda mais considerando que 2010 é ano eleitoral. Nehme lembra que o grau de investimento vem e vai.

De R$ 1,80 a R$ 1,90

“O Ministro Mantega, um otimista nato, continua assegurando que não haverá este tipo de problema”, pondera Sidnei Nehme. Ele torce para que Mantega esteja certo. “Mas o fato é que o mercado convive com a incerteza, o que provoca elevação dos juros longos, ao mesmo tempo em que na Bovespa a grande dúvida é saber se a economia vai confirmar tudo que vem se projetando com certa euforia.”

E o dólar nesse cenário? Com boa dose de acertos, Nehme projeta a variação do dólar entre R$ 1,80 e R$ 1,90, teto pouco provável de ser atingido, segundo ele, mesmo que o fluxo cambial se acentue. Mas desde que o BC mantenha firme a sua estratégia de não intervir no mercado futuro e continue com os leilões de compra no mercado à vista de dólares.

Nehme é crítico das hipóteses segundo as quais o real se aprecia devido ao câmbio flutuante e ao fluxo intenso do ingresso de divisas. “As análises se calam quando o fluxo cambial é negativo, e o preço do dólar continua caindo”, ele ironiza.

Solução de emergência

O câmbio depreciado, na falta de poupança fiscal servida para que o Banco Central não infle a dívida pública nas compras de divisas, é solução de emergência.

Como diz Nehme, o governo precisa agora é focar as exportações, desonerando-as de tributos, e trazer para o primeiro plano a discussão de medidas para reduzir o chamado custo Brasil, que ficou, diz ele, “um pouco esquecido”. Quanto ao dólar, ele cai, aqui, por mérito da economia, não por seus defeitos."

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