Ladislau Dowbor é formado em Economia Política pela Universidade de Lausanne, Suiça; doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia. Além de professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) nas áreas de Economia e Administração, presta serviços de consultoria. É autor e coautor de cerca de 40 livros e atua, principalmente, nos temas relacionados à mudança tecnológica, economia dos recursos humanos, economia regional e urbana, planejamento educacional, economia internacional e gestão ambiental. Possui uma página na internet, onde disponibiliza diversos artigos de sua autoria (www.dowbor.org).
Palestrante da 66ª Semana Oficial da Engenharia, da Arquitetura e da Agronomia, que será realizada de 2 a 5 de dezembro, em Manaus (AM), Ladislau falará sobre O Brasil no Contexto Mundial – Desafios e Oportunidades. “Vou falar do contexto geral, da convergência de tendências críticas que está obrigando todo o planeta a repensar as formas de gestão”, antecipa o professor. Segundo ele, serão abordados aspectos relacionados à desigualdade, às grandes políticas nacionais, ao enfrentamento do Brasil diante da crise financeira ambiental e energética e a sua dimensão externa.
Confea - Podemos afirmar que estamos vivendo uma crise ambiental. Ao mesmo tempo, muito se ouve dizer que as crises geram oportunidades. Como o senhor vê o papel do Brasil no contexto atual de mudanças climáticas?
Dowbor - Está havendo uma convergência de crises. Em relação à crise financeira, o Brasil tirou proveito com muita competência. Reforçaram o mercado interno, fizeram políticas redistributivas, mudaram o sistema tributário, diminuindo a dependência externa e diversificando o mercado. Mas o que temos hoje é uma convergência de crises centradas: o aquecimento global, a necessária mudança do paradigma energético - do petróleo para outras fontes -, uma reformulação estrutural. Hoje, são quase 2 bilhões de pessoas com dificuldade de acesso à água limpa. Temos uma crise com destruição das florestas no planeta que se articula com a perda dos solos; um conjunto de problemas ambientais e outro conjunto de problemas ligados à desigualdade, com o consumo obsessivo por um terço da população mundial. Basicamente, o terço superior da população está se apropriando de algo como 80% da produção do planeta. Isso é insustentável. O aspecto das tecnologias também é crítico. Como não é acompanhada da reorganização social, muita gente se vê marginalizada do processo produtivo. O Banco Mundial avalia em 4 bilhões o número de pessoas que não têm acesso aos benefícios da globalização. Se juntarmos todos esses elementos, chamamos de crise sistêmica. Precisamos pensar um processo decisório capaz de alterar essa situação.
Confea – Vimos recentemente uma deficiência do setor energético do país. Como o senhor avalia a questão da sustentabilidade nesse contexto? O que ainda tem de ser melhorado?
Dowbor - Basicamente, temos de melhorar a capacidade dos sistemas de enfrentar variações. Um blecaute como o que se teve agora, só quem não entende acha que estamos fora disso. Tivemos situações assim nos Estados Unidos, Canadá, Europa. No nosso caso, por termos um sistema baseado essencialmente em energia hidrelétrica, dependemos de alguns fornecedores, por outro lado, isso nos protege porque é uma energia mais limpa. O blecaute que aconteceu aqui em 4 horas estava resolvido, nos Estados Unidos levou 4 dias, no Canadá, 7. O nosso sistema é funcional. Estão sendo feitos investimentos. Temos perspectiva de fortes avanços em biocombustíveis. E o Brasil tem a dianteira nesse processo, em hidroeletricidade junto com os avanços muito fortes em termos de etanol, biocombustível. O país está muito bem para o enfrentamento desta crise. Fazer o escândalo que se está fazendo é uso político.
Confea - Em relação à tecnologia existente no país e a aproximação da Copa e das Olimpíadas, qual a sua visão sobre o Brasil estar preparado ou não para esses eventos?
Dowbor - O Brasil está passando a ocupar um lugar de destaque no mundo. No governo Lula foi implantado um conjunto de políticas certas: a redistribuição de renda, o fortalecimento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o Programa Universidade para Todos (Prouni), o CrediAmigo do Banco do Nordeste, o Programa Territórios da Cidadania. Tudo isso significa um rumo para se assegurar renda na base da sociedade, no nosso 4º mundo. Isso gera mercado interno, dinamiza o conjunto de pequenas e médias empresas. Na realidade, mostrou-se que políticas socialmente corretas no sentido de distribuição de renda são, na verdade, boas. Provou-se que não é verdade o que se dizia: que o pobre se recebesse cem reais a mais cruzava os braços. Isso é verdade para quem nunca foi pobre. A prazo, teremos crianças mais bem alimentadas e, internacionalmente, esse processo está sendo muito bem acompanhado. O Brasil mostrou que é capaz de fazer grandes programas nacionais de maneira competente e isso foi levado em consideração para que o país fosse escolhido como sede de grandes eventos. O Brasil tem governança, tem uma visão social e ambiental, e mostrou que fazer políticas no “andar de baixo econômico” (the bottom of the pyramid) não tira pedaço dos ricos. Isso significa dizer que estamos no rumo certo.
Serviço:
66ª Semana Oficial da Engenharia, da Arquitetura e da Agronomia
Período: 2 a 5 de dezembro
Local: Manaus, AM
Palestra: Ladislau Dowbor na Soeaa
Assunto: O Brasil no Contexto Mundial – Desafios e Oportunidades
Data: 3 de dezembro, às 8h30
Mais informações: www.soeaa.com.br
Tânia Carolina Machado
Assessoria de Comunicação do Confea
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