terça-feira, 17 de novembro de 2009

Cidade Biz - O "novo Brasil" já decolou, diz The Economist, mas ainda há muitas fraquezas a superar

Pé atrás é com o gasto público, que "cresce mais rápido que a economia", diz a mais influente revista do mundo

Antonio Machado

O “Brasil decola”, diz a chamada da reportagem de capa da edição semanal da revista inglesa The Economist, a mais influente entre os poderosos do mundo, acompanhada da advertência, inserida em um de seus editoriais, segundo a qual “agora o risco para a história de maior sucesso da América Latina é a soberba”.

Das constatações do Economist destacam-se o atraso dos analistas estrangeiros em descobrir as oportunidades da economia brasileira e a preocupação de que o novo ciclo de crescimento seja curto.

No Brasil é o que também incomoda os (poucos) que alertam para a inconsistência entre consumo interno crescente, impelido por gasto público e crédito bancário, e os estímulos para a volta da taxa de investimento ao nível pré-crise, sem poupança pública - e muito em breve sem capacidade ociosa na indústria.

Está sendo contratado para meados de 2010 em diante o retorno da dependência de capital estrangeiro - risco que o governo desdenha ao acionar o IOF para frear o ingresso de hot money, que valoriza o real, e, assim, evitar o colapso das exportações.

É o que há a fazer, e mais se fará no curto prazo, possivelmente com o aumento do IOF recém-introduzido à base de 2% para o dobro disso ou mais. Mas apenas por motivos políticos, já que o governo relaxou o seu ímpeto inicial de aprofundar as reformas estruturais da economia - e se deixou levar pela crença de que o saco fiscal aguenta desaforos e preocupar-se com isso seria “rudimentar”.

Foi o que ouviram da ministra Dilma Rousseff, com consentimento do presidente Lula, no início de 2006, os ministros Antonio Palocci e Paulo Bernardo. Não se preocupar com o fiscal por dois a três anos, com certeza. Mais que isso daria problema, como estava dando.

Não fosse a débâcle depois de setembro de 2008 da economia global, por exemplo, e já este ano, mais tardar em 2010, o superávit da balança comercial teria se transformado em déficit - a tendência que se reintroduz, com real forte ou não.

O superávit tende a recuar de estimados US$ 25 bilhões este ano, semelhante ao saldo positivo de 2008 (contra US$ 40,1 bilhões em 2007), para US$ 11 bilhões em 2010, na projeção do Bradesco ou US$ 10 bilhões, pela consultoria LCA. No Itaú, já se fala em déficit.

E aí? Ai vai se ter a anomalia de uma economia com reservas acima de US$ 230 bilhões e déficits comerciais, financiados pelo fluxo de investimentos de multinacionais e, se forem insuficientes, pelo hot money que hoje o governo quer afugentar.

Crise adiou déficits


Não haveria com o que se preocupar se os déficits externos fossem a consequência da importação dos bens de capital requeridos pelos projetos industriais. Mais à frente a produção nacional ampliada expandiria as exportações e atenderia a parcela da demanda que é suprida com importações.

Mas já em 2008, quando a economia voava, as importações de bens de consumo competiam com as de equipamentos e máquinas. E na raiz desse processo adiado pela crise estavam os descompassos entre a demanda e a expansão da oferta, sem mediação do gasto público priorizando o investimento.

Soberba do governante

A reportagem do Economist chama essa dissintonia de propósitos da economia, a satisfação imediata em contraponto à poupança criadora de riqueza, de “soberba” do governante.

Orgulho demais - “hubris”, ela escreveu -, não costuma ser um bom sentimento. É sequela comum às políticas de governos excessivamente midiáticos e populares.

Onde se manifesta há tanto causas efetivas que justificam o senso de que tudo caminha bem, como liderança forte no governo, partidos fracos e formulação curtoprazista da política econômica.

Problemas são nossos

É como se o país estivesse numa gangorra. “Tanto quanto seria um equívoco subestimar o novo Brasil, o é encobrir suas fraquezas”, diz o Economist.

Aqui é uma democracia ao contrário da China, diz a reportagem. “Não tem insurgência, conflitos étnicos e religiosos nem vizinhos hostis”, como na Índia. “Exporta mais que petróleo e armas”, ao contrário da Rússia.

A questão é se as qualidades do Brasil entre os países do acrônimo BRIC compensam os problemas.

O pé atrás do Economist é com o gasto público, que “cresce mais rápido que a economia como um todo”, com o investimento público e privado “muito pequeno”. A educação e infraestrutura ficam atrás de China ou Coréia do Sul (“como o blecaute desta semana lembrou aos brasileiros”), em algumas áreas “a criminalidade é alarmante”.

Faltou destacar que tais problemas são apenas nossos, não sequelas da crise global. Mas talvez por isso sejam mais difíceis.

O que exige cuidados

Em média a cada cinco anos The Economist mergulha na situação do Brasil e pauta as percepções internacionais sobre o país. Seu grau de conhecimento sobre a situação nacional é maior que a de outras publicações, mas, como tudo que olha de cima para baixo, desconfia da velocidade dos acertos e teme muito os riscos de retrocessos.

As mazelas não são muito diferentes da que havia na Europa, nem mesmo a corrupção. O que as diferencia é a truculência, bem maior abaixo da linha do Equador. O destaque é o que diz a reportagem: o estágio mais avançado das instituições brasileiras em relação aos emergentes que atraem a atenção do mundo. É o que sempre exige cuidados.

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