quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

País está maduro para outro ciclo virtuoso, se Lula barrar seus adeptos de magia


Está tudo ok? Não, estará mal, se o governo perder a racionalidade e patrocinar projetos heterodoxos

Antonio Machado

O Brasil está diante de mais uma fantástica oportunidade de vir a superar os ranços e bolsões de subdesenvolvimento que continuam a macular a caminhada do crescimento econômico harmônico, como quase em uníssono prenunciam os estudos de consultorias internacionais.

A mais recente, da PricewaterhouseCoopers, projeta o Brasil como a 5ª maior economia do mundo até 2030, num ranking liderado pela China, seguida de EUA, Índia e Japão, com o Produto Interno Bruto medido em termos de paridade de poder de compra. Mas que seja pela medida clássica do PIB valorado em dólar que dá no mesmo.

Hoje, o Brasil é a 8ª maior economia, pelo mapa do Banco Mundial, ou a 10ª, na métrica do Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas a posição relativa entre os países pode ser ilusória. O país já foi, noutros tempos, cotado como a China hoje em dia.

Entre o início da década de 1950 e o final da de 1970 a economia brasileira foi a de maior crescimento do mundo. O PIB crescia à base de 7% ao ano.

A Coréia do Sul era um país miserável até aos anos 70, destroçado pela guerra civil, dividido entre o norte comunista e o sul sob a influência dos EUA, e fome endêmica. Gastos maciços em educação, complementados com um programa de investimentos em infraestrutura, tecnologia e política industrial voltada para a exportação de bens sofisticados desgarraram o sul da miséria em apenas trinta anos.

Sem um fio de petróleo, nenhuma riqueza mineral e terras escassas para a agricultura, ela se tornou um pais desenvolvido, com baixa desigualdade social e democrata, ao contrário da China. Ao começar a ascensão, a sua renda per capita era menor que a do Brasil.

Hoje, o PIB per capita da Coréia do Sul é o 30º do mundo, pelo ranking do Banco Mundial (38º, segundo o FMI). Brasil vegetou nos anos em que os coreanos triunfaram, recuando para a 54ª posição na medida do Banco Mundial, ou 63ª, pela régua do FMI. E a Coréia do Norte comunista se tornou um país pária, arruinado e sem futuro.

Como cavalo paraguaio

Tais exercícios comparativos se fazem importantes quando mais uma vez o país parece pronto para decolar. Parecia e estava também nos anos que antecederam a crise da dívida externa, no ocaso do regime militar. Seguiu-se a chamada “década perdida”.

O fim do ciclo da moratória externa - decretada no governo Sarney e levantada na administração de Itamar Franco –, acompanhado pelo Plano Real, foi outro momento, na visão dos analistas, para um salto duradouro.

Mas o ajuste das finanças públicas durou muito, usou-se o câmbio como instrumento antiinflacionário à custa das exportações – o que desperdiçou o saneamento das contas externas, recuperadas entre os governos Collor e Itamar.

Os déficits vulnerabilizaram a economia, colocando o país por três vezes no colo do FMI. Os gastos públicos nunca foram disciplinados, levando ao aumento desmedido da carga tributária e da dívida do Estado, inflada também pelos juros.

Vícios de FHC e Lula

Na transição entre os governos FHC e Lula a economia estava outra vez mais fluída e saneada. Os investimentos públicos e privados e a tensão social, no entanto, estavam no limite de resistência.

Em favor de FHC se alega que o mundo enfrentou três crises econômicas que castigaram os países já chamados de emergentes. É verdade, mas não conta tudo. A falta de equilíbrio entre o ajuste das contas do Estado e os investimentos e política sociais atrasou muito mais.

Com Lula, as prioridades macroeconômicas se amoldaram melhor com a ênfase social, embora o investimento só tenha merecido atenção no segundo mandato e a despesa pública anacrônica corresse solta.

Que Lula não se engane

A fortaleza da economia, sobretudo do setor privado, compensou os excessos, minorando, com apoio do gasto anticíclico, os efeitos da grande crise do crédito que aleijou a economia global. Com pequena reforma do sistema de financiamentos, da Previdência e da volúpia fiscal depois de 2010, dificilmente a prosperidade será revertida.

Está tudo a mil maravilhas? Não, estará mal, se o governo perder a racionalidade e patrocinar projetos heterodoxos, como a intenção de assessores dos Ministérios da Justiça e do Trabalho de obrigar, em lei, as empresas a distribuir 5% do lucro líquido para os seus empregados. Ou a redução da jornada de trabalho também em lei.

Tais benefícios têm de vir por negociação. Forçados, podem sustar o ciclo de desenvolvimento, assim como o “mercadismo” frustrou lá atrás a retomada pelo investimento. Que Lula não se engane: basta uma canetada para tornar pó o que se conquistou com muita labuta.

Algemando o sucessor



O empresário é um bicho arredio. O financiamento do investimento público por fontes fiscais bateu no teto. Nos bancos públicos, não há também muito mais espaço de manobra - e são eles que apóiam os investimentos privados, suplementados pelo capital externo e o que ainda é tímido: o mercado de capitais.

A ala esquerda do governo, porém, acredita que o Tesouro tudo pode. Pôde na excepcionalidade da crise, ao prover duas vezes funding ao BNDES, no que fez bem para as circunstâncias, mas não poderá repetir a dose.

É de fontes privadas que depende o novo ciclo de crescimento. Mas há setores que querem algemar o sucessor, sobretudo se for Dilma Rousseff. A idéia é impedir que emule o pragmatismo de Lula, caso se eleja.

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