Cuidado com o que se deseja! Juro real de 2%, por exemplo, também pode vir só de mais inflação
É preciso cuidado com o que se deseja. A presidenta eleita, Dilma Rousseff, tem estimulado a projeção de que quer reduzir para 2% ao ano, em termos reais, até 2014 a taxa de juros, vulgo Selic, que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central determina em função das expectativas de inflação. Como o colesterol, tem a taxa de juros real - isto é, abatida a inflação - boa e tem a ruim.
O desejo é consensual. Mas o resultado pode ser alcançado de dois jeitos. O jeito certo pressupõe o cerco aos fatores que induzem ao aumento contínuo dos preços de modo a que o BC não precise acionar a Selic. O errado é tomar o juro como o mal absoluto, e não o que o faz tornar-se asqueroso. Com o BC submetido a constrangimentos e tudo o mais livre e fagueiro, é a inflação que entra em cena, como as gangues de traficantes no Rio sempre que a polícia se recolhe.
Em ambos os casos, chega-se à Selic real de 2%. Recapitulando: ou com a queda estrutural da inflação, dispensando o aumento de juros para combatê-la; ou o seu oposto, que só é exeqüível numa situação em que a autonomia operacional do BC tenha sido manietada.
É fazer as contas. Com Selic de 6,6% e a meta de inflação de 4,5% realizada sem qualquer frustração, a taxa real será de 2%. É como Dilma almeja. Mas com inflação de 8,5% e a Selic estável no nível atual, de 10,75% ao ano, também se terá taxa de juros real de 2% - mas não, certamente, como a futura presidente deseja.
Hoje, a Selic real coincide com a inflação de doze meses até outubro de 5,2% medida pelo IPCA, dos preços ao consumidor. E vem a 3%, tirando o Imposto de Renda na fonte, que só é isento para o aplicador estrangeiro. Inflação é um animal ardiloso. Perseguido por amadores, sempre acha um jeito de escapar dos caçadores, não sem antes marcar território do modo como os bichos apreciam.
A conversa entre Dilma e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para discutir a intenção da presidente eleita quanto à política monetária, deve permear tais considerações. E ser espinhosa. A agenda da reunião foi precedida de inabilidades que não deixaram nenhum deles bem na história.
A primazia de Mantega
Antes de marcar com Meirelles, Dilma liberou a informação de que o Ministério da Fazenda continuará com Guido Mantega. Ele e o seu braço-direito, o secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa, também próximo a Dilma, são críticos da ênfase atribuída aos juros pelo BC no controle da inflação. Eles acham que o BC exagera.
Além disso, defendem a visão de que a economia vem desacelerando-se, o que será confirmado pelo mapa do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, e defendem um plano fiscal de quatro anos para murchar a relação entre a dívida pública e o PIB (de 41% para 30%) e zerar o déficit, incluído juros, do orçamento federal.
Meirelles se inquieta
Meirelles reagiu mal aos meneios pondo o BC em segundo plano no jogo de poder da economia. Em tempos de normalidade econômica é o que deve ser: o BC quieto, como bombeiro à espera de emergências.
Não é assim, ainda, no Brasil. De Frankfurt, onde se encontrava para uma reunião de bancos centrais, revelou que fora chamado por Dilma para conversar. Segundo “fontes”, recurso de quem não quer comprometer-se com o que diz, afirmou que só consideraria eventual convite para continuar, se o BC mantiver a autonomia delegada pelo presidente Lula desde 2003 para definir a taxa de juros.
Na prática, ele insinuou que a autonomia, base do regime de metas de inflação, estaria ameaçada, deixando Dilma em situação difícil, e qualquer outro convidado para dirigir o BC. Sem previsibilidade, razão de ser da meta de inflação, função de o BC poder fazer o que tiver de ser feito no tempo certo, as expectativas não convergem.
Descascando o abacaxi
O processo todo de escalação dos operadores da política econômica do novo governo está sendo inadequado, já que não acompanhado de uma formulação negociada previamente pela assessoria de Dilma e, então, apresentada ao país. A meta da Selic real de 2%, por exemplo, seria a última coisa a ser dita, se é que deva haver tal comprometimento, já que consequência das políticas econômicas, e não - como parece ser o que ela acredita - início de outro modelo.
Agora, sobrou para ela descascar o abacaxi, sem Lula a ajudá-la. Com grande parte de sua popularidade derivada do aumento do poder de compra dos salários devido à estabilidade da inflação, Lula é a ultima pessoa a poder correr o risco de bancar o que seja incerto.
Visões inconciliáveis
As coisas estão assim. Primeiro, pelo que sugere Meirelles, meta rígida de inflação não estaria mais garantida. Segundo, a Fazenda acha que há condições na economia para a Selic continuar parada em 2011, talvez diminuir, e vislumbra como âncora fiscal um processo de redução de dívida e déficits, e não do gasto público corrente.
Diverge, assim, do diagnóstico do BC, partilhado pela maioria do mercado financeiro, de que há um problema de demanda e que tende a se agravar, somando-se a expansão fiscal com a do crédito, renda e investimentos. Por tal juízo, o BC estaria atrasado com a Selic.
O PIB no trimestre passado vai exibir crescimento magro, com viés puxado pelo consumo, e sequelas sobre inflação e contas externas. Dilma está diante dessas duas concepções, e optou pela da Fazenda.
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