Com a economia do mundo rico submetida às humilhações que jogaram no chão a autoestima de países então chamados de subdesenvolvidos, Brasil entre eles, nos anos de 1990 e 2000, a questão recorrente é se o eixo do poder econômico vai deslocar-se, conforme a geografia da geopolítica, do Norte para o Sul, e o que será preciso para que isso aconteça. É primário apostar na ruína dos EUA e da Europa.
A ascensão dos emergentes ao status de potência depende mais da autonomia de seu próprio processo de crescimento que da queda dos atuais poderosos, ainda que signos de poder, como o dólar, percam a hegemonia. A China tem o seu projeto de poder econômico. A Índia também. Ambos têm no investimento na produção mais que no consumo corrente a alavanca propulsora de suas economias, com tudo o mais - como a moeda colada ao dólar, na China, e a ênfase em serviços, na Índia -, funcionando como instrumentos para o objetivo maior.
E o Brasil? A prioridade é difusa. Formalmente, é o investimento, mas, desde a derrocada do crescimento acelerado no regime militar, as políticas econômicas, dos governos Collor a FHC, priorizaram o ataque à inflação e à vulnerabilidade externa. A obra prosseguiu com Lula, mas com as políticas sociais de transferência de renda, “como nunca antes”, ocupando o centro das atenções do governo.
E chegamos, nesta versão abreviada da história do crescimento em quase meio século, ao governo Dilma Rousseff. O desenvolvimento veio em processo, com avanços e recuos, e hoje tende a contemplar o investimento produtivo como prioridade de fato, e não retórica.
As condições estão dadas. Mas não estão claros a percepção desse processo e os meios para atingi-lo. Parte dos obstáculos está na execução do gasto público, como vimos na coluna anterior, baseada em análise do economista Fernando Montero. Ele prossegue o debate, ao ligar a questão fiscal à projeção de crescimento para a taxa de investimentos em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) lançada no Plano Brasil Maior – a nova versão de política industrial.
A meta é elevá-la de 18,4% do PIB, em 2010, para 22,4% até 2014, uma medida consensual entre os economistas, variando a magnitude, para o crescimento sustentado de 4,5% a 5% ao ano, com inflação e déficit externo controlados. O país precisa investir o equivalente a R$ 823 bilhões/ano, 22,4% do PIB de 2010, ou R$ 147 bilhões mais do que investiu. “É o lado escuro de cenários luminosos”, diz ele.
Quem pode gastar mais
Montero trabalhou a meta de investimentos sobre o PIB do Plano Brasil Maior, considerando a projeção para o crescimento econômico entre 2011 e 2014 de 4,5% ao ano, com três simulações dos itens que influenciam a demanda agregada – e assim, de algum modo, a inflação, os juros, o câmbio, o emprego, a renda e por ai vai.
As simulações consideram a evolução do consumo do governo e dos beneficiários de transferências de renda (que representam 30% do PIB) e do consumo das famílias originado pelas rendas privadas (51,6% do PIB). O propósito foi estimar o crescimento possível dos gastos privados, depois de descontar, do crescimento potencial do PIB (4,5%), o aumento do investimento e o gasto corrente fiscal.
Consumir ou investir
O resultado indica o espaço do governo para gastar em relação às metas de investimento e inflação. Para hipóteses de crescimento do consumo público de 3,5%/ano, 6,5% e 8%, o consumo privado poderia expandir-se sem pressões internas e externas, respectivamente, 3% ao ano, 1,1% e 0,1%. O consumo privado crescer 3%, segundo ele, é coerente com um plano de expandir o investimento com poupança.
As outras duas hipóteses são menos viáveis frente às premissas de aumento de salários e de crédito, com mercado de trabalho apertado e redução de juros reais – outra intenção do governo. O problema de mais consumo privado, diz, é que transborda para a inflação, o que aciona juros e déficits externos e derruba o investimento.
As regras para Dilma
Tais considerações deveriam permear a negociação do governo com a base de partidos aliados quanto aos gastos públicos. Raramente é assim, para sermos gentis. Para o investimento engordar sua fatia num PIB que cresce 4,5%/ano e com inflação na meta (também 4,5%), o governo deve apertar ou seus gastos ou o de empresas e pessoas.
Apertar não no sentido de arrochar, mas para que cresça abaixo do PIB, permitindo ao investimento avançar sem criar tensão. Déficit externo seria o jeito de distender as fricções do crescimento, mas tal saída está limitada, segundo Montero, pela base já ser alta e pela crise global. Estão ai as regras do jogo para Dilma jogar.
China 40 X Brasil 4
A diferença entre modelos bem-sucedidos de crescimento da riqueza nacional por décadas a fio, caso da China, ou Alemanha e Japão no Pós-Guerra, e o que há no Brasil é que aqui o processo parece um pisca-pisca, alternando as ênfases.
Ora é a capacidade produtiva, ora a renda, com vários modelos de financiamento - uns arriscados, via dívida externa, outros sem foco, como o atual, que reprime o investimento com custos altos, se privado, e o trata como variável de ajuste orçamentário, se público.
Não é à toa que enquanto o PIB medido em termos de paridade de poder de compra cresceu entre 1980 e 2010 quatro vezes no Brasil, menos que EUA e França, na China se multiplicou por 40. Essa história fica para outro dia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário