terça-feira, 28 de abril de 2009

Recuo visto pelo FMI e aumento do desemprego pelo IBGE devem ser lidos com cautela

Desemprego está estável com ajuste sazonal, e o pessimismo do Fundo parece visão de retrovisor
Antonio Machado

Para quem se compraz com coisa ruim, a semana foi um prato cheio com as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) e a taxa de desemprego de março anunciada pelo IBGE. É, mas nem tanto.

O FMI reviu sua estimativa anunciada em janeiro de crescimento de 1,8% da economia brasileira em 2009 para retração de 1,3%, dando o tom de seu pessimismo geral para o desempenho econômico no mundo.

O PIB global tenderia a recuar 1,3%. O dos EUA, queda de 2,8%. Na Alemanha, menos 5,6%. No Japão, um desastre: mergulho de 6,2%. O melhor resultado seria da China, com crescimento de 6,5%.

Apenas em 2010 o PIB global voltaria a crescer, recuperando 1,9%, mas com o mundo rico em marcha lenta. Os EUA ficariam estagnados e a zona euro continuaria em recessão (-0,4%). No Brasil, a economia cresceria, segundo o FMI, miúdos 2,2% em 2010. Na China, 7,5%.

Com o anúncio de que o desemprego saiu de 8,5% em fevereiro para 9%, fechou-se o quadro ruim – e, no entanto, nunca tais números foram tão relativos. Comece-se pelo FMI: seu histórico de acertos não o favorece. Recomenda-se uma leitura adversativa, como fez o presidente Lula em Buenos Aires ao repercutir a projeção do FMI.

“Não quero ser desrespeitoso, mas o Brasil só deu certo quando foi dono de seu nariz”, disse. Afora que o “nariz” nacional nunca teve outro “dono”, embora assim parecesse por convir ao governante atribuir ao Fundo as maldades da economia para livrar a cara, Lula disse bem - especialmente ao complementar a sua fala.

“Se fossem tão fiscalizadores das crises como foram da Argentina e do Brasil, saberíamos desta crise três anos antes”, ironizou. É isso mesmo. Como lembra em e-mail à coluna o diretor da Pentágono Asset Management, Marcelo Ribeiro, o FMI nunca antecipou o que já estava debaixo do nariz – olhe ai, Lula -, como a crise em série da Ásia em 1997 e a quebra da Rússia. Em ambas acordou tarde.

Da crise do crédito atual, que se arrasta como tal desde o fim de 2007, não só não viu como à época endossou a tese falaciosa do tal descolamento das economias emergentes com o estudo “Decoupling the train”, “induzindo”, segundo Ribeiro, “investidores, empresários, países a erro”. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, diz que tais previsões não devem ser vistas de “forma tão grave”.

O pessimismo tardio

Elas são úteis como referências, só. Se quatro meses atrás o FMI falava em crescimento de 1,8% do PIB no Brasil quando era visível o tombo devido à parada abrupta do crédito após a quebra do Lehman Brothers em setembro, a queda de 1,3% prevista agora vale tanto quanto a anterior. Está certo que o BC estime crescimento de 1,2%.

Mas o BC corre atrás, para não influenciar as expectativas, e faz revisões trimestrais. O Fundo também. Só que elas foram otimistas demais no tempo errado, e hoje parecem tardiamente pessimistas.

Feio já foi horrível

A base de tais previsões é o potencial de perdas bancárias não realizadas no mundo, que o FMI estima agora em US$ 4,1 trilhões, dos quais US$ 2,8 trilhões em bancos americanos. Sem a faxina dos ativos podres, o crédito não se normaliza.

Mas também será difícil aos Tesouros nacionais girar a dívida soberana em construção para aliviar a recessão via injeções fiscais. Não obstante, o quadro do mercado imobiliário nos EUA em março indicou estabilidade pelo 2º mês seguido.

Na Alemanha, o índice de atividade empresarial subiu também em março. Na França, o nível de consumo surpreendeu. Até na Inglaterra, onde a crise é profunda, há indícios de melhora.

Desemprego não subiu

Tudo tênue, incapaz de tirar as economias da recessão - e sugerir a volta aos bons tempos do crédito farto, então, nem pensar. Mais provável é que tal processo leve anos. Mas a crise parece esgotar-se, não sendo esta a mensagem das soturnas projeções do FMI.

Os mesmos atenuantes se aplicam ao aumento do desemprego nas seis regiões metropolitanas apuradas pelo IBGE. Cresceu meio ponto de percentagem sobre fevereiro e o mesmo mês de 2008. Mas com ajuste sazonal mês contra mês ficou estável indo de 8,3% a 8,4% em março.

Foi resultado de o pessoal ocupado crescer 0,9% contra março de 2008 e recuar 0,14% sobre fevereiro - mas menos que a queda sobre janeiro (-0,34%). Não menos relevante é que o rendimento médio real diminuiu apenas 0,2% na margem, e cresceu 5% sobre 2008.

Quer dizer: a crise não bateu feio no emprego. Ao menos ainda. É isso o que importa, não que a taxa de 9% é a pior desde setembro de 2007.

O ânimo da indústria

Sem brigar com os números nem tomar partido pela recessão ou pela redução do agravamento, a pesquisa de emprego do IBGE, segundo o economista Fernando Montero, informa que a deterioração continuou na margem em março, “mas em ritmo moderado e aquém do esperado” à luz do ambiente produtivo.

O Iedi, Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, faz o mesmo diagnóstico, destacando o aumento da População Economicamente Ativa (PEA) depois de quatro meses em queda, sinal de mais gente procurando emprego. Montero diz que a defasagem sobre a ocupação e a renda teria de ser muito “virulenta” para impedir a melhora do consumo daqui para frente.

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