sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sobram vagas por falta de qualificação dos candidatos a emprego no comércio - Tribuna do Norte

Marcelo Barroso
Sobram vagas e currículos, mas os candidatos não têm qualificação para conseguir o emprego
Tribuna do Norte

Apenas 30% das vagas de emprego ofertadas no Rio Grande do Norte pelo Sistema de Emprego e Renda (Sine/RN) são preenchidas. O restante fica em aberto por conta da falta de qualificação dos candidatos. A vaga existe, mas não há pessoas com qualificação suficiente para serem contratadas.

O dado, repassado pela sub-secretária de Trabalho do Governo do Estado, Alcina Holanda, contrasta com o alto nível de desemprego do Brasil. Cerca de 8,9% dos brasileiros estão desempregados. Ao mesmo tempo, sobram vagas, principalmente em setores que exigem mais especialização, como a indústria. “Essa é uma realidade de todo o Rio Grande do Norte e é causada tanto pela alta competitividade, em que as exigências das empresas são muito rígidas, quanto pela falta de qualificação e escolaridade dos candidatos”, explica Alcina Holanda.

O resultado disso é um paradoxo preocupante, como explica Artur Coelho, responsável pela Cafeteria Siciliano, que tenta esta semana preencher 14 vagas para a nova loja da empresa, a ser instalada no terceiro piso do Midway Mall. “Hoje o mercado está saturado de pessoas desempregadas, ao mesmo tempo em que não há gente para trabalhar, por falta de qualificação”, diz. E complementa: “as pessoas precisam entender que hoje não existe emprego sem qualificação. Ainda estou na batalha pra preencher essas vagas. Eu sou professor de gastronomia, mas na hora de contratar um cozinheiro, eu enlouqueço, justamente por conta desse problema”.

Sobre essa questão, o caso do Midway Mall é mesmo paradigmático. Há cerca de um mês, a Associação dos Lojistas do Midway Mall – Alomid recebeu mais de três mil currículos para preencher as primeiras 350 vagas abertas com a inauguração do terceiro piso. No fim da seleção, o Shopping não conseguiu contratar todos os funcionários necessários. “É impressionante porque emprego disponível existe. Se hoje chegar aqui no Midway um candidato qualificado à vaga de vendedor, é contratado ainda hoje”, garante o presidente da Alomid, Edmílson Teixeira. O índice de preenchimento de vagas, nesse caso, é ainda menor: cerca de 10%. Hoje, o shopping precisa de funcionários em quase todas as áreas, como vendedores, estoquistas, embaladores, cozinheiros e assistentes de serviços gerais. O Sine/RN também conta com 90 vagas não preenchidas.

O principal causador do problema é o tão falado fator social que mina outras áreas preciosas da sociedade brasileira. Tudo começa na educação básica precária, aliada a uma política insuficiente de qualificação profissional. O superintendente regional do Senac, Laumir Barreto, sente de perto o peso do problema. “Hoje o Senac recebe alunos com deficiências sérias em português e matemática. São pessoas que saíram do Ensino Médio com dificuldades nas quatro operações matemáticas (somar, dividir, multiplicar e diminuir) e na compreensão de textos”, afirma. “Às vezes reclamam que o Senac não forma vendedores aptos ao trabalho. Mas não entendem que o processo é complexo, onde entra a educação básica, a educação que o candidato recebe em casa, enfim, uma série de coisas. O curso profissionalizante sozinho não vai resolver tudo isso”, acrescenta.

Programas governamentais ainda não são suficientes

As políticas de qualificação profissional promovidas pelo Governo do Estado ainda são, de longe, insuficientes para atender toda a necessidade da população. Todos os programas têm grande procura, mas a demanda reprimida é muito alta. “A demanda reprimida do RN é superior ao que podemos ofertar. Hoje a secretaria não teria nem como fazer uma projeção do aumento necessário de oferta nos programas estaduais para atender a todos, até porque a qualificação profissional tem que ser algo permanente”, explica Alcina Holanda, subsecretaria de Trabalho da Secretaria de Trabalho, Habitação e Ação Social.

São atendidos nos cinco principais programas estaduais cerca de 60 mil pessoas por ano. Além dos programas estaduais, existem cursos profissionalizantes em entidades do Sistema ‘S’, como o Senac, que projeta cerca de 30 mil atendimentos para esse ano. Os principais programas estaduais são: o Projovem Urbano, que inclui ensino médio e curso técnico; o Projovem Trabalhador, apenas com o curso técnico; o Programa Primeira Chance, uma parceria entre o Governo do Estado e várias empresas para estimular o primeiro emprego; o Jovem Empreendedor, que estimula a criação de pequenas empresas; e a mais nova cria do Governo do Estado, o Trabalhador Nota 10.

Empresários bancam a qualificação do pessoal

O Programa Trabalhador Nota 10 segue uma tendência cada vez mais marcante: a parceria entre o poder público e a iniciativa privada na qualificação do trabalhador. De acordo com a subsecretária de Trabalho, Alcina Holanda, os empresários “pedem” ao Governo um tipo de curso para um número ‘x’ de pessoas e são atendidos, com os custos inteiramente pagos pelo Estado, mas sob a condição de empregar todos os participantes. “Antes, o Estado bancava o curso de qualificação, mas não tinha certeza de como o participante seria aproveitado. Agora, será diferente”, diz Alcina.

Estratégia parecida está usando o Midway Mall. Através de uma parceria com o Senac, todos os funcionários do Shopping irão participar de cursos de qualificação, sem custo algum para o trabalhador. “Está na hora do empresariado entender que é preciso investir nessa área. Se o Governo não faz e o funcionário nem sempre tem o dinheiro para pagar o curso, os empresários precisam fazer a sua parte”, explica Edmílson Teixeira, da Associação dos Lojistas do Midway Mall."

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