Viabilidade do modelo importa mais que a discussão sobre o viés estatizante da propostaAntonio MachadoClaramente baratinada pela proposta da nova Lei do Petróleo, em especial com a dobradinha estatizante concebida pelo governo para o pré-sal e o discurso nacionalista praticado pelo presidente Lula abrindo a campanha eleitoral pela sua sucessão, a oposição talvez encontre em lorde Keynes, que além de economista excepcional era provido de muito bom humor, inspiração sobre o que fazer.
Pessoa prática, sem ser calculista, Keynes dizia que, quando as nuvens estão negras, é perda de tempo discutir sobre a utilidade do guarda-chuva. A PetroSal, a empresa 100% estatal proposta pelo governo ao Congresso para controlar as áreas do pré-sal, está como o guarda-chuva em dia fechado: melhor sair de casa com ele.
Hoje, não menos que 80% das reservas de petróleo no mundo estão em mãos de governos, segundo a analista Valerie Marcel, da Chathan House, tradicional centro de estudos inglês, e três quartos entre as 20 maiores petroleiras são estatais. O tempo das “sete irmãs”, como Shell e Exxon, que dominaram o mundo do petróleo, e também governos e muitas coisas mais, virou memória do século 20.
Elas continuam ai, imensas, lucrativas, são sócias da Petrobras nos campos da Bacia de Santos licitados pelo regime de concessão que o governo propõe mudar para o de partilha, com a PetroSal no comando dos contratos e a Petrobras com o monopólio resgatado da exploração para as áreas do pré-sal, mas já não possuem nenhuma reserva de grande porte em lugar algum, fora os EUA e Inglaterra.
É ingenuidade, assim, supor que Lula e os partidos que o apóiam - formando um arco da esquerda à direita, opostos em tudo, menos na atração irresistível pelo aconchego do Estado - manteriam o senso privatizante do modelo aprovado pelo governo FHC em 1997, ao verem que tinham algo muito grande para bater bumbo. E Lula viu mais.
Sem o bônus do pré-sal e com o ônus do mensalão, a retórica do nacionalismo funcionou no segundo turno da eleição de 2006, com o tucano Geraldo Alckmin acuado pela cobrança das privatizações de FHC. Agora que Lula e sua candidata Dilma Rousseff podem sujar as mãos literalmente em petróleo, como, aliás, já fizeram, e prometer tempos de fartura, eles seriam tolos se não repetissem a fórmula.
Tudo isso é armadilha deliberada para a oposição, mas também para a tramitação zelosa dos projetos no Congresso. O governo vai usar o preconceito de setores da sociedade em relação às privatizações para impingir aos opositores da reforma a pecha de “entreguista”, desqualificando as críticas e construindo o discurso eleitoral.
Bater boca é ociosoNa festa armada para anunciar a reforma do marco regulatório do pré-sal, Lula declarou, referindo-se à quebra do monopólio pela legislação de 1997 - “tempos de pensamento subalterno”, acentuou -, que “altas personalidades chegaram a dizer que a Petrobras era o último dinossauro a ser desmantelado”.
Enfrentar tal argumentação, por maior que seja seu caráter eleitoreiro, parece perda de tempo.
Circularidade demaisO papel da PetroSal poderia ser da Agência Nacional do Petróleo, desde que fortalecida e imunizada contra o loteamento partidário (hoje está entregue ao PC do B), ou de uma seção da Secretaria do Tesouro Nacional, conforme idéia lá atrás do ex-ministro Antonio Palocci.
Não precisa ser uma empresa estatal, mas, se tiver perfil técnico e for enxuta como promete o governo, não é o fim do mundo. Ao contrário, é o que se faz hoje no mundo, certo ou errado.
O miolo do modelo de exploração do petróleo proposto pelo governo é a exclusividade da exploração entregue à Petrobras, a fórmula de seu financiamento pelo Tesouro para poder assumir responsabilidade muito acima de seu patrimônio e a supervisão do processo pela nova estatal. Tudo isso tem muita circularidade e pouca transparência.
Governo e... GovernoA PetroSal como fiscal dos contratos de partilha e também dona da produção que lhe couber por tal sistema explorado pela Petrobras é o mesmo que dizer que o governo supervisiona o governo. No way.
A capitalização da Petrobras mediante o repasse pelo Tesouro de 5 bilhões de barris de petróleo do pré-sal à espera de avaliação ao preço de US$ 10 cada, ou algo assim, seguida da emissão de títulos pelo Tesouro em valor equivalente repassados à estatal como o naco do Tesouro no aumento de capital da empresa tem algo de esquisito.
A produção futura como contrapartida dos títulos é a maneira de a dívida pública não ser impactada. Mas a circularidade é flagrante.
Exclusividade é o nóO entendimento sobre o conteúdo técnico da modelagem do pré-sal importa mais que a discussão sobre o viés estatizante da proposta. Essa pode ser mudada mais à frente, se for inepta. Inconsistências macroeconômicas, porém, produzem danos irreversíveis.
A opacidade do circuito entre as contas fiscais e monetárias é um risco que os políticos e muita pouca gente na academia avaliou. Nem sabe do que se trata.
A capacidade de a Petrobras assumir o custo operacional como operadora exclusiva do pré-sal é o nó do novo modelo. Já a PetroSal e o regime de partilha se moldam a qualquer cenário. É a consistência do investimento que fará o novo modelo ficar de pé.
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